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domingo, 28 de outubro de 2012

Filipe I


  • Filipe I, nasceu a 23 de Maio de 1052
  • faleceu no Castelo de Meulan, Yvelines a 29 de Julho de 1108) foi rei dos Francos de 1060 até à sua morte, o quarto da chamada dinastia dos capetianos directos
Durante o seu longo reinado, a monarquia francesa iniciou uma modesta recuperação do ponto mais baixo que atingiu no reinado do seu pai, tendo adicionado os territórios Vexin e Bourges aos domínios da coroa.

Filho de Henrique I de França e Ana de Kiev, foi o primeiro príncipe da Europa ocidental com o, na época exótico, prenome de Filipe. A avó materna da sua mãe era descendente da dinastia macedónica de Bizâncio, que afirmava remontar a Alexandre o Grande e a Filipe da Macedónia, e na qual este nome era comum.

Filipe foi coroado em Reims a 23 de Maio de 1059, na presença de seu pai. Com a morte do seu pai em 4 de Agosto de 1060, subiu ao trono e o primeiro condestável da França seria nomeado nesse mesmo ano. Só reinaria sozinho a partir de 1066, ao atingir a maioridade. A sua mãe, e depois o seu tio Balduíno V, conde da Flandres, assistido pelo arcebispo Gervásio de Reims, exerceram a regência desde a morte de Henrique I. Conforme o costume do seu tempo, seria coroado várias vezes durante o seu reinado: em 25 de Dezembro de 1071, pelo bispo Elinando de Laon, na catedral dessa cidade, em 16 de Maio de 1098 em Tours e em 25 de Dezembro de 1100 em Reims.


  • Domínios reais

Durante o seu reinado delinearam-se as grandes tendências da política dos soberanos capetianos do século XII: assegurar uma base concreta do poder real, por meio da consolidação do domínio real, e conter os vassalos mais poderosos. Para aumentar os domínios da coroa, tomou os territórios de parte de Vermandois, Gâtinais (1068), VexinBourges e o senhorio de Dun-le-Roi (1101). Desenvolveu a administração real e, para assegurar as receitas da coroa, dispôs dos bens da Igreja e vendeu cargos eclesiásticos, o que atraiu a fúria dos reformadores gregorianos.

Em 1071 sustentou a causa de Richilde e Arnulfo, a viúva e o filho de Balduíno VI, conde da Flandres, contra o seu cunhado e tio Roberto. Filipe foi derrotado na batalha de Cassel em Fevereiro, na qual o herdeiro Arnulfo morreu. Mas conseguiu tomar Saint-Omer em Março e acordar uma paz com Roberto, que foi reconhecido conde da Flandres.

Durante a maior parte do seu reinado, Filipe I lutou para diminuir o poder do seu mais importante vassalo, Guilherme o Conquistador, duque da Normandia e rei da Inglaterra a partir de 1066. Para isto, contou com o apoio de Fulque IV, conde de Anjou e de Roberto I da Flandres, que se sentiam também ameaçados por este vizinho demasiadamente poderoso. A fim de consolidar a sua aliança com a Flandres, casou-se com Berta da Holanda (c. 1055 - 1094), filha do conde Florent I da Holanda e de Gertrude de Saxe.
francesa (1077), viscondado de

Filipe infligiu uma grave derrota a Guilherme perto de Dol-de-Bretagne, em 1076. No ano seguinte, reforçado pela vitória, tomou a Vexin francesa a Simon de Crépy, filho do terceiro esposo de Ana de Kiev, que se tornou monge das castelarias de Mantes e de Pontoise.


Guilherme I de Inglaterra renunciou à Bretanha e acordou uma paz com o rei francês, que mesmo assim se manteve preocupado com a ameaça anglo-normanda. Através de uma política continuada pelos seus sucessores, esforçou-se em desenvolver dissenções na família d'o Conquistador.


Em 1078 a França tomou o partido de Roberto II da Normandia, o primogénito de Guilherme, quando este se revoltou contra o pai. Depois de lhe ter confiado a guarda do castelo de Gerberoy, nos arredores de Beauvais, Filipe terá mudado de aliado. No ano seguinte preparou-se para cercar o castelo juntamente com Guilherme, que se feriu na operação. Pouco depois, Roberto obteve o ducado da Normandia. O rei capetíngioGisors na margem direita do rio Epte.


Representação de Guilherme o Conquistador na sua coroação, no museu de Bayeux
Depois da morte de Guilherme I da Inglaterra, a 9 de Setembro de 1087, mesmo com Roberto II da Normandia tentando tomar a Vexin francesa a Filipe, este ajudou-o a tentar recuperar o trono da Inglaterra que o seu irmão, Guilherme II da Inglaterra, herdara. O novo monarca inglês tentaria, como represália, tomar também a Vexin entre 1097 e 1099, mas falhou nas três campanhas sucessivas.
recebeu por recompensa a vila de

Na Primavera de 1092, Filipe enamorou-se de Bertranda de Monforte (c. 1061 - 1117), esposa de Fulque IV, conde de Anjou. Repudiou Berta da Holanda e casou-se em segundas núpcias com Bertranda a 27 de Maio de 1092. A 16 de Outubro de 1094, o concílio de 32 bispos em Autun pronunciou a excomunhão do rei.

Chegado a França para retomar a reforma gregoriana e excomungar novamente o rei, a 27 de Novembro de 1095 o papa Urbano II pregou a Primeira cruzada no concílio de Clermont. Declarado anátema, Filipe não participou das cruzadas, apesar de o seu irmão Hugo I de Vermandois ter sido um dos principais intervenientes, juntamente com Raimundo IV de Toulouse.


Depois de associar o seu filho Luís à coroa em 1098, deixou-o encarregado das operações no terreno. Depois de uma controvérsia sobre o bispado de Beauvais, entre 1100 e 1104, Filipe reconciliou-se com o papado e foi absolvido em 1104. Em 1107, o papa Pascoal II deslocou-se à França, onde se encontrou com o rei e o herdeiro da coroa em Saint-Denis. Seria assim selada por um século a aliança entre o reino da França e o papado contra o Sacro Império Romano-Germânico.


A 29 de Julho de 1108, Filipe I morreu no castelo real de Melun depois de quarenta e oito anos de reinado, o terceiro mais longo da história da França. Devido aos pecados que cometera durante a sua vida, não quis ser sepultado ao lado dos seus ancestrais na basílica de Saint-Denis, mas sim na abadia de Fleury em Saint-Benoît-sur-Loire. Seria sucedido pelo seu filho Luís VI de França, cognominado o Gordo, de 29 anos de idade. A sua esposa Bertranda de Monforte tomou o véu aos 38 anos na abadia de Fontevraud.


  • Casamentos e descendência

  • Do primeiro casamento com Berta da Holanda
  • Constança de França (1078-1124), casada com Hugo I de Blois, conde de Champagne em 1097 e, depois da separação, com Boemundo I de Antioquia príncipe de Antioquia em 1106.
  • Luís VI de França (1 de Dezembro de 1081 — 1 de Agosto de 1137), cognominado o Gordo, foi rei dos Francos de 1108 até à sua morte.
  • Henrique de França, (n. 1083), príncipe de França, morreu jovem.
  • Carlos de França (n. 1085), príncipe de França e abade em Charlieu, no Loire.
  • Odo de França (1087-1096), morreu jovem.
Do Casamento com Bertranda de Monforte

  • Filipe de França (c. 1093 - depois de 1129), conde de Mantes.
  • Fleury de França (c. 1093 - c. 1147), senhor de Nagis.
  • Cecília de França (c. 1097 - depois de 1145), princesa de França, casada com Tancredo da Galileia, príncipe da Galileia e depois com Pôncio de Trípoli, conde de Trípoli.


 


terça-feira, 1 de novembro de 2011

João II

  • João II de Valois, o Bom nasceu a 16 de Abril, 1319 -
  • morreu a 8 de Abril, 1364
  • foi Rei de França de 1350 a 1364, pertencente à casa de Valois.
  • Era filho de Filipe VI de França e de Joana da Borgonha.
  • A 28 de Julho de 1332, João casou com treze anos com Bona do Luxemburgo, filha de João o Cego, Rei da Boémia, de quem teve numerosa descendência. Na mesma ocasião, o pai fez dele Conde de Anjou. João II foi um dos reis franceses mais envolvidos na fase inicial da Guerra dos Cem Anos contra Inglaterra.

João tornou-se rei de França em 1350 e foi coroado na Catedral de Reims. O cognome o Bom foi adquirido quase de imediato e era uma referência à sua generosidade para com os pobres e o rigor com que levava a sua condição de cavaleiro.

No entanto, o pouco valor que dava ao dinheiro e a aderência cega aos princípios cavalheirescos haveriam de pôr o seu país em graves problemas ao longo do seu reinado. Uma das primeiras medidas como rei foi mandar executar o Conde d'Eu e Condestável de França, um homem poderoso na hierarquia militar e com ligação a várias famílias importantes.

A decisão, justificada por alegadas negociações do Condestável com o rei Eduardo III de Inglaterra, com quem França se encontrava em guerra, causou logo mal estar junto da nobreza e minou a autoridade do novo rei.

Para substituir d’Eu, João II nomeou o seu favorito Carlos d’Espagne como novo Condestável, apesar da forte oposição. A decisão seguinte de se rodear de conselheiros de proveniência e motivações duvidosas aumentou ainda mais a clivagem entre si e os seus pares, numa altura em que França necessitava sobretudo de unidade.

Estes passos que lhe valeram o antagonismo da nobreza eram um indício das fracas capacidades governativas que João tinha para mostrar. O facto de, no primeiro ano do seu reinado, a moeda ter-se desvalorizado dezoito vezes, ilustra bem este ponto.
Se não era muito cuidadoso com assuntos políticos e económicos, João II levava muito a sério a honra e prestígio do seu país, que considerava residirem no cumprimento dos ideais de cavalaria. Para enaltecer estes valores, João criou a Ordem da Estrela, que visava a perseguição da honra em nome de Deus e de Nossa Senhora.

A Ordem serviu também como manobra para exigir aos seus 500 membros, de entre a nobreza de França, um novo juramento de lealdade.

Quase desde o início do reinado, João II encontrou um inimigo político no primo e genro Carlos II, o Mau, Rei de Navarra e, enquanto Conde d’Evreux, vassalo de França. Então com pouco mais de 20 anos, Carlos II era um homem ambicioso e conflituoso que procurava minar o poder dos Valois sempre que possível.

A luta entre os dois atingiu o auge em 1354 com o assassinato, às ordens de Carlos II, do Condestável de França. Carlos II foi preso e depois perdoado, mas continuou a manipular intrigas contra João II e a manter contactos com Eduardo III de Inglaterra. Assim, quando chegou a hora de um confronto armado com Inglaterra, França estava irremediavelmente fracturada.

A 19 de Setembro de 1356, teve lugar a Batalha de Poitiers, uma das mais importantes da História de França e da Guerra dos Cem Anos.

O exército francês apresentou-se na sua máxima força, comandado por João II, o seu Condestável Gautier de Brienne e os Marechais Clermont e d’Audrehem. As tropas inglesas em menor número eram comandadas por Eduardo, o Príncipe Negro e incluíam uma divisão de archeiros.

O resultado do confronto foi, tal como a batalha de Crecy, uma derrota humilhante para França, não só devida ao erros tácticos repetidos de encontros anteriores, mas também à desorganização e falta de coerência do exército.

As baixas foram pesadas, o número de prisioneiros enorme e os poucos que regressaram a casa foram acusados de cobardia pelas populações. Mas a maior tragédia tinha sido a captura de João II e do seu filho mais novo, Filipe de Valois.

O Príncipe Negro levou João II e a sua comitiva de prisioneiros para Londres, onde foram recebidos como convidados de luxo. Embora sob custódia, João não foi privado da sua condição real e foi-lhe permitido manter casa, criados, cavalos, cães e falcões para caça, bem como sua correspondência com França. De Inglaterra, João II importou vinhos e outros artigos de França, que depois vendia aos captores com uma margem de lucro.

A contabilidade do rei neste período sobreviveu e mostra que no cativeiro, João II teve uma vida confortável, senão mesmo luxuosa.

Do outro lado do Canal, a situação era bem mais desesperante. França estava entregue à anarquia, com a ausência de um monarca e a falta de autoridade do Delfim enquanto regente, face à burguesia cada vez mais activa na oposição. O resgate do rei e os tratados de paz estavam em negociações, mas mesmo o valor mínimo admitido em troca da libertação do rei deixaria o país na ruína, o que não ajudava na motivação de reunir a quantia.

Para além do mais, a mesada do rei, enviada para Inglaterra e destinada a custear a subsistência digna do rei era mais um peso para os cofres do estado. O Delfim enfrentou graves problemas sociais, dos quais a revolta popular da Jacquerie foi o melhor exemplo.

Em 1360, foi assinado o Tratado de Brétigny, que estipulava o resgate em 3.000.000 de coroas, uma soma colossal que deveria ser paga em prestações. Como garantia dos pagamentos, quarenta nobres foram enviados para Inglaterra, em troca da liberdade de João II. Entre eles encontravam-se Luís I, Duque de Anjou e Enguerrand VII, Senhor de Coucy.

João II regressou a França quando o país atravessava uma grave crise económica (em parte devido ao seu resgate), política e social. Como primeira iniciativa, o rei enviou uma expedição para tomar a fortaleza de Brignais, perto de Lyon, onde estava barricada uma companhia de mercenários renegados.

O ataque, concretizado sem qualquer plano, resultou em desastre e na morte de Jacques de Bourbon, Conde de La Merche, um dos mais leais seguidores de João II. O rei absteve-se de mais tentativas para recuperar a normalidade da situação e nada mais fez.

O Inverno de 1362 foi passado em Avinhão, em conversações com o papa sobre a possibilidade de realizar uma nova cruzada. Este plano falhou sobretudo graças à bancarrota do reino de França e à falta de entusiasmo de Inglaterra em colaborar.
João II chegou a Paris em Julho de 1363, onde descobriu que o filho Luís, Duque de Anjou, farto de esperar pelo resgate que nunca mais aparecia, tinha fugido da custódia inglesa.

O rei tomou então a extraordinária decisão de se entregar de novo aos ingleses, para compensar a falta de conduta do filho, apesar de isso obrigar à negociação de um novo resgate da sua pessoa. João II regressou a Londres no princípio de 1364 e morreu na cidade cerca de quatro meses depois.

Foi sucedido pelo filho Carlos V e é recordado essencialmente pelas suas políticas desastradas e incapacidade de liderança.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Filipe VI



  • nasceu em 1293
  • morreu em Nagent-le-Rotrou a 22 de Agosto 1350
  • foi Rei de França de 1328 até à sua morte, o primeiro da dinastia de Valois que ficaria até 1498 no trono. Ganhou por apelidos da posteridade le vrai catholique, le fortuné, le roi trouvé, le roi salique .

  • Dados biográficos

Era o filho primogénito de Carlos de Valois (1270-1325) Conde de Valois e de Alençon, e da sua primeira mulher Margarida de Nápoles-Anjou, herdeira do Condado de Anjou.

Pelo pai, era neto do rei Filipe III de França e foi nesta condição que se assumiu como pretendente ao trono em 1328, depois da morte do primo, Carlos IV. O rei deixara a mulher grávida e nasceu uma menina, tornando-se Filipe o novo monarca.

Filipe foi o regente, enquanto não nasceu a criança. Conde de Anjou, do Maine e de La Roche-sur-Yon em 1325, duque de Anjou em 1325. Rei de França a partir de 1º de abril de 1328, foi ungido em 29 de maio de 1328.

Sua coroação não foi aceite pelo rei Eduardo III de Inglaterra que, por via de Isabel de França sua mãe, era sobrinho de Carlos IV e neto de Filipe IV o Belo.

Os franceses, receosos de perder a independência, não aceitaram esta pretensão e evocaram a lei sálica, que impedia mulheres ou descendentes por via feminina de subirem ao trono francês. A questão resvalou para o conflito militar e foi a causa primordial da Guerra dos Cem Anos, iniciada em 1337.

O resto do reinado de Filipe VI foi marcado pelas invasões inglesas, que resultaram na desastrosa derrota na batalha de Crécy (1346) e na perda de Calais. Este rei que inaugurou no trono a dinastia de Valois teve que enfrentar insubordinações de seus barões que não o respeitavam como monarca absoluto, era oriundo de um ramo jovem da casa real.

A grande epidemia de peste negra de 1348-1349 ocorreu também no reinado de Filipe VI.

  • Casamentos e descendência
Filipe VI casou duas vezes. Primeiro, em julho de 1313 em Fontainebleau, com Joana da Borgonha (1293-1349) apelidada a Coxa, que se dizia ser o cérebro do marido, filha de Roberto II, Duque da Borgonha, e de Inês de França. Era irmã de Margarida da Borgonha, mulher de Luís X. Tiveram oito filhos:

  • Filipe de Valois (1315, morto cedo)
  • Joana de Valois (1317)
  • João II, Rei de França (1319-1364) o Bom ou de Valois. Foi conde do Maine e do Anjou, Duque da Normandia, duque da Aquitânia e reinou depois do pai.
  • Maria de Valois (1326-1333). Ainda teve tempo de ser casada em Paris em 8 de julho de 1332 com João III do Brabante (1300-1355) duque de Limburgo.
  • Luís de Valois (1328-1328)
  • Luís de Valois (n. e morto em 1330)
  • João (1332-1333)
  • Filipe de Valois, Duque de Orleans (1336-1375), que casou com Branca de França (1328-1392, filha póstuma de Carlos IV e de Joana de Evreux. Conde de Beaumont em 1353, conde de Valois em 1344, Duque de Orleans e da Touraine em 1344. Sem posteridade legítima.
Casou depois em 29 de janeiro de 1350 em Brie-Comte-Robert com Branca d'Evreux ou de Navarra (1330-1398), filha do rei Filipe III de Navarra e de Joana II de França, rainha da Navarra desde 1328, filha de Luís X. Tiveram uma filha

  • Joana de Valois (maio de 1351-16 de setembro de 1371 em Béziers), apelidada La Blanche. Casou com João de Aragão, Duque de Gironda.
O Rei teve ainda dois bastardos:

  • Jean d’Armagnac (morto depois de 1350).
  • Beatriz de la Berruère (1294-1348) a qual foi casada com Tomás de la Marche (1317-1361) chamado Thomas Albus, senhor de la Marche.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Carlos IV



Carlos IV da França, cognominado o Belo
nasceu em Creil, Picardia, 18 de Junho de 1294
morreu em Vincennes, 1 de Fevereiro de 1328
foi rei de França de 1322 até à sua morte, o décimo quinto e último da chamada dinastia dos capetianos directos.

Foi também conde de la Marche de 1314 a 1322, e rei Navarra e conde de Champagne desde 1322 até à sua morte, com o nome de Carlos I. O mais jovem dos filhos sobreviventes de Filipe o Belo e Joana I de Navarra, os seus irmãos foram Luís X de França, Filipe V de França, e Isabel de França, rainha consorte da Inglaterra.

Depois da invasão da Flandres em 1305, o seu pai concedeu Béthune, a primeira cidade a render-se, a Matilde, condessa de Artois e viúva de Otão IV, conde palatino da Borgonha.

Para garantir a fidelidade desta, foi organizado o casamento das suas duas filhas, Joana e Branca, com os príncipes Filipe e Carlos, respectivamente, filhos do rei francês. O matrimónio de Carlos com Branca ocorreu em 1308.

Em Abril de 1314, ano em que recebeu o título de conde de la Marche em apanágio do seu pai, uma visita da sua irmã Isabel de França despoletou o caso da Torre de Nesle: Margarida da Borgonha, esposa do seu irmão Luís, e a sua esposa Branca da Borgonha foram acusadas de adultério.

Filipe de Aunay, amante de Margarida, e Gautério de Aunay, amante de Branca, foram julgados e condenados por crime de lesa-majestade. A 19 de Abril foram supliciados e executados em praça pública em Pontoise.

As duas princesas tiveram os seus cabelos rapados, um humilhante desfiguramento e marca física do seu crime de adultério. Vestidas de preto, foram aprisionadas nas masmorras de Les Andelys, de onde Branca só sairia depois de sete anos, obtendo autorização para tomar o hábito de religiosa.

Ainda se tornaria rainha de França na prisão, a 21 de Fevereiro de 1322, até o seu casamento ser anulado a 19 de Maio pelo papa João XXII.


Carlos subiu ao trono depois da morte do seu irmão Filipe V de França, segundo a lei sálica, e foi sagrado em Reims a 21 de Fevereiro de 1322 pelo arcebispo Roberto de Courtenay, tal como o seu predecessor. Simultanealmente, herdou o reino de Navarra e o condado de Champagne.

Tal como o reinado do seu irmão mais velho Luís X de França, o seu também seria condicionado pelo escândalo da Torre de Nesle e pela vontade em se casar com uma rainha capaz de lhe dar um descendente para continuar a dinastia capetingia
.
Encontrando o tesouro real vazio devido aos gastos dos reinados precedentes, Carlos aumentou os impostos. Puniu severamente e confiscou os bens dos banqueiros lombardos que tinham sido os credores do reino.

Foi igualmente rigoroso com os juízes e senhores que se tinham apropriado dos bens de particulares, sendo acusado de não só perseguir estes, como também outros nobres que não estavam no seu favor. Chegou mesmo a prender Girard de la Guette, superintendente das finanças de Filipe o Alto acusado de ter desviado 1.200.000 libras.

Carlos o Belo teve um grave conflito com o rei Eduardo II de Inglaterra por este se recusar a prestar-lhe o juramento de vassalagem a que era obrigado pelas suas possessões na França: o ducado de Guyenne e Ponthieu.

A partir de 1323, alguns senhores da Gasconha, apoiados pelos ingleses, fizeram incursões nos domínios do reino. Uma vez que estes gascões eram liderados por bastardos da nobreza, este conflito foi chamado de Guerra dos Bastardos.

Em 1325, o rei francês tomou os territórios ingleses no continente. Eduardo enviou a sua esposa Isabel de França para negociar com o irmão. Isabel acabou por organizar na França a deposição do rei inglês em favor do seu filho Eduardo III, em 1326-1327, e a instituição de uma regência da rainha mãe com Roger Mortimer, em nome do seu filho.

Carlos IV morreu de tuberculose a 1 de Fevereiro de 1328, em Vincennes, encerrando assim a linha dinástica directa que começou com Hugo Capeto. Foi sepultado com a sua terceira esposa, Joana de Évreux, na basílica de Saint-Denis.

  • Sucessão

Joana de Évreux estava grávida aquando da morte de Carlos IV. Tal como no caso do seu irmão Luís X, foi necessário aguardar o nascimento da criança para se saber se era varão e poderia continuar a dinastia capetiana. Entretanto o reino passou para a regência de Filipe de Valois. Ao nascer outra filha, a 1 de Abril de 1328, que não podia reinar devido à lei sálica, passaram a haver três pretendentes:

  • * Eduardo III de Inglaterra, filho de Isabel de França, eliminado da sucessão porque, segundo uma interpretação mais alargada da lei sálica, as mulheres não só não podiam herdar o trono, como também não podiam transmitir este direito. Esta posição foi contestada pelo monarca inglês, o que foi uma das razões principais para a Guerra dos Cem Anos que se seguiu.
  • * Filipe de Valois, regente, primo direito de Carlos IV e filho de Carlos de Valois.
  • * Filipe de Évreaux com Joana II de Navarra, filha de Luís X de França, herdeira do reino de Navarra e do condado de Champagne.

O trono francês passou assim para as mãos de Filipe de Valois, que se tornou rei Filipe VI de França. Navarra foi restituída à sua herdeira legítima, uma vez que a sua suposta bastardia de Joana II (devido ao caso da Torre de Nesle) nunca foi provada. Joana tinha-se casado em 1317, com o seu primo Filipe de Évreux, que negociou com o novo rei Filipe VI.

Em troca do seu apoio ao novo monarca e da anexação oficial do condado de Champagne aos territórios do reino da França, este conseguiu o trono navarrez para a sua esposa e para si, tomando o nome de Filipe III de Navarra.


  • Casamentos e descendência
Em 1307 ou 1308, Carlos casou-se com Branca da Borgonha, filha de Matilde de Artois e Otão IV da Borgonha, que seria condenada por adultério no caso da Torre de Nesle em 1314. No ano da sua subida ao trono, o papa João XXII anulou o matrimónio por razões de consanguinidade. Deste casamento nasceram:

  1. Filipe de la Marche (antes de 5 de Janeiro de 1314 - antes de 24 de Março de 1322)
  2. Joana de la Marche (1315 - 17 de Maio de 1321)

A 21 de Setembro de 1322, em Provins, casou-se em segundas núpcias com Maria de Luxemburgo, filha do Sacro Imperador Henrique VII de Luxemburgo e de Margarida de Brabante.

  • Deste matrimónio nasceu uma filha que não sobreviveu.


A 21 de Março de 1324, no decurso de uma viagem a Issoudun, na província de Berry, a carruagem de Maria virou-se, provocando a morte da rainha e do herdeiro varão de que estava grávida. O descendente desta união foi:

  • Luís de França (nascido e morto em Março de 1324), poucos dias depois do seu baptismo

A 13 de Julho de 1325, ainda sem um filho homem, casou-se com a sua prima Joana de Évreux, filha de Luís de Évreux e de Margarida de Artois. Deste casamento nasceram:

  • Joana de França (antes de 11 de Maio de 1326 - antes de 16 de Janeiro de 1327)
  • Maria de França (1327 - 6 de Outubro de 1341)
  • Branca de França (1 de Abril de 1328 - 8 de Fevereiro de 1393), filha póstuma, condessa de Beaumont, casada em 1345 com o duque Filipe Valois de Orleães, filho de Filipe VI de França.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Filipe V




Filipe V de França, cognominado o Alto, o Longo, o Comprido, o Caolho ou ainda o Zarolho (
  • Nasceu em Lião a 17 de Novembro de 1293
  • faleceu em Paris a 3 de Janeiro de 1322
  • foi rei de França de 1316 até à sua morte, o décimo quarto da chamada dinastia dos capetianos directos.
Foi também conde de Poitou de 1311 a 1316 por apanágio do seu pai Filipe IV de França, conde palatino da Borgonha de 1315 a 1322 pelo seu casamento com Joana II da Borgonha, e rei Navarra e conde de Champagne desde 1316 e até à sua morte, com o nome de Filipe II
.
Devido ao processo pelo qual foi escolhido como sucessor do sobrinho João I no trono francês, ficou principalmente conhecido por promulgar a lei sálica na França, impedindo assim que neste reino a coroa pudesse passar para uma mulher.

  • Primeiros anos e casamento

Segundo filho de Filipe o Belo e Joana I de Navarra, os seus irmãos foram Luís X de França, Carlos IV de França, e Isabel de França, rainha consorte da Inglaterra.

Depois da invasão da Flandres em 1305, o seu pai concedeu Béthune, a primeira cidade a render-se, a Matilde, condessa de Artois e viúva de Otão IV, conde palatino da Borgonha.

Para garantir a fidelidade desta, foi organizado o casamento das suas duas filhas, Joana e Branca, com os príncipes Filipe e Carlos, respectivamente, filhos do rei francês. O matrimónio de Filipe com Joana ocorreu em Corbeil, em 1307.

Em Abril de 1314, uma visita da sua irmã Isabel de França despoletou o escândalo da Torre de Nesle: Margarida da Borgonha, esposa do seu irmão Luís, e Branca da Borgonha, esposa de Carlos, foram acusadas de adultério.

Joana da Borgonha, irmã de Branca e amiga íntima de Margarida, foi envolvida por ter cohecimento e guardado segredo das infidelidades das outras duas, e encarcerada na fortaleza de Dourdan.

No mesmo ano Filipe IV morreu e foi sucedido por Luís X.

Em 1315, por influência da sua mãe, Joana foi libertada e voltou à corte, após ser absolvida pelo parlamento.

Pouco depois o seu irmão Roberto, herdeiro de Otão IV e conde da Borgonha, morreu.

O título passou para a irmã, agora intitulada condessa Joana II da Borgonha. Filipe o Alto, como esposo, assumiu esse título jure uxoris (por direito de casamento), depois de já ser conde de Poitou por direito próprio, título oferecido em apanágio pelo seu pai.

  • ]Regência e subida ao trono

Quando o rei Luís X morreu, a segunda esposa e viúva deste, Clemência da Hungria, estava grávida. Filipe assumiu a regência, sob alegações de que nessas condições a rainha não podia assumir o governo do país. A sucessão do trono permaneceu uma incógnita, havendo três pretendentes:

  • No caso de um filho varão, este herdaria a coroa da França.
  • Se nascesse outra menina, Joana, filha de Luís X, poderia subir ao trono, apesar de não haver precedentes de uma mulher ter sido coroada rainha governante da França. Ao contrário, Navarra tinha este precedente e no futuro aceitaria esta como soberana.
Mas poderia ser decidida a necessidade de descendência varonil, pelo que Filipe o Alto, o irmão sobrevivente mais velho do falecido rei, herdaria a França.


O assunto parecia resolvido com o nascimento de um filho varão, João I de França, o Póstumo, na noite de 14 para 15 de Novembro de 1316. Mas João viveu apenas durante alguns dias, falecendo a 19 de Novembro de forma misteriosa durante a cerimónia de apresentação aos barões.

Houve algumas suspeitas de envolvimento de Filipe na morte do sobrinho, mas nenhuma informação concreta confimou essa teoria. Apesar de serem lançadas várias teorias de conspiração sobre este óbito que, mesmo fazendo sentido, não estão provadas, não é particularmente extraordinária a morte de um bebé no início do século XIV.

Mesmo com as condições privilegiadas de uma das casas reais mais evoluídas da Europa, é necessário ter em conta a taxa de mortalidade infantil da época.

À nobreza do reino foi então posta a questão da legitimidade da princesa Joana, nascida do primeiro matrimónio, à sucessão do trono francês. De facto, era a primeira vez que ocorria a ausência de um herdeiro varão directo. A sucessão que começara por ser electiva no início da dinastia capetiana, passara a dinástica varonil.

Havendo inclusivamente dúvidas sobre a paternidade de Joana, devido ao caso da Torre de Nesle, a nobreza francesa preferiu oferecer, nos Estados gerais de 1317 e alegando a lei sálica, as coroas de ambos os reinos, e o condado de Champagne, ao irmão de Luís X e já regente, Filipe V de França.

Foi sagrado e coroado na catedral de Reims pelo arcebispo Roberto de Courtenay, também um capetiano, a 6 de Janeiro.

A 2 de Fevereiro reuniu uma assembleia de nobres, prelados e burgueses de Paris para declarar que pela sua ascendência estava melhor colocado para subir ao trono que a sua sobrinha Joana, uma vez que estava separado de São Luís por duas gerações contra três desta, e afirmando que "nenhuma mulher sucederá no reino da França".

  • Reinado
Durante seu reinado, Filipe retomou a política interrompida do seu pai, retomando assim a idéia da realeza, perdida no reinado anterior.

Uma das suas primeiras acções foi ajudar a reunir um conclave de 23 cardeais em Lião, em 1316, para resolver o impasse que há dois anos deixava a Santa Sé em sede vacante e o mundo católico sem papa.

Aprisionados por Filipe na igreja até definirem o sucessor de Clemente V, elegeram então Jacques Duèze, que tomou o nome de João XXII. Este teria sido o conclave que criou a regra de a eleição dos papas se realizar atrás de portas trancadas.

Em 1318 renovou a aliança com a Escócia. Depois de uma campanha na Flandres contra Roberto III, este prestou-lhe homenagem a 5 de Maio de 1320.

Bom estratega, Filipe o Alto conseguiu vencer as oposições e resolver os problemas com os flamengos pela diplomacia, na paz de 2 de Junho desse mesmo ano.

Na política interna, confirmou as cartas de foral provinciais e centralizou as diferentes instituições para as tornar mais eficazes. Impôs a utilização de uma moeda única no território apesar da oposição dos nobres do sul da França.

Tentou também normalizar os pesos e as medidas, encontrando resistência nos Estados gerais, e criou a Câmara de Contas, cuja finalidade primordial, essencial e principal seria o saneamento da administração pública.

Ainda em 1320, juntou a cidade de Tournai aos domínios da coroa. A 29 de Junho, na catedral de Amiens, recebeu do seu cunhado Eduardo II da Inglaterra a homenagem pelo ducado de Guyenne, o condado de Ponthieu e a cidade de Montreuil.

Entretanto, na Normandia iniciou-se um movimento chamado a Cruzada dos Pastores, em Maio de 1320: um pastor adolescente afirmava ter sido visitado pelo Espírito Santo, que o instruíra a lutar contra os mouros na Península Ibérica.

Semelhante ao movimento com o mesmo nome no reinado de São Luís, este movimento incluía principalmente jovens, mulheres e crianças. Marcharam sobre Paris para pedir a Filipe V para os liderar, mas o rei recusou-se a encontrar-se com os cruzados.

Assim, estes dirigiram-se para sul até à Aquitânia, no caminho atacando castelos, oficiais do rei, padres e leprosos. No entanto, os alvos principais eram mesmo os judeus, que atacaram em Saintes, Verdun, Cahors, Albi e Toulouse, onde chegaram a 12 de Junho.

O papa João XXII, em Avinhão, deu ordens para os parar.

Quando eventualmente entraram na Península Ibérica os seus ataques já eram conhecidos, e Jaime II de Aragão empenhou-se em proteger os seus súbditos. Inicialmente proibiu-os de entrarem no seu reino, mas quando mesmo assim entraram, em Julho, Jaime avisou os seus nobres para garantirem a segurança da comunidade judaica.

Conforme esperado, os pastores atacaram alguns judeus, especialmente na fortaleza de Montclus, onde mais de 300 judeus foram mortos. Afonso de Aragão, filho de Jaime, foi enviado pelo pai para controlar a situação. Os responsáveis pelo massacre de Montclus foram presos e executados, depois não ocorreram mais incidentes incidentes e a cruzada dispersou.

Esta "cruzada" é vista como uma revolta contra a monarquia francesa, tal como a primeira Cruzada dos Pastores. Os judeus eram vistos como um símbolo do poder real uma vez que, mais do que quaisquer outros súbditos, necessitavam da protecção pessoal do rei, tanto na França como em Aragão.

Estes eram também um símbolo da economia real, odiados pelos pobres e pelos camposeses, que se viam sob pesados impostos. Tinham-se passado poucos anos desde que Filipe IV de França permitira o regresso dos judeus ao seu país, depois de a ter expulsado em 1306.

As dívidas à comunidade judaica tinham no entanto sido cobradas para os cofres da monarquia depois dessa expulsão, o que provavelmente também contribuíra para aos olhos de povo, ser feita a ligação entre os judeus e o rei.

Em 1321, Filipe multou as comunidades que tinham assassinado judeus. Isto levou a uma segunda revolta, desta vez entre a população urbana. Apesar de cronistas posteriores terem inventado a ideia de uma "Cruzada dos Vaqueiros", uma segunda vaga desta Cruzada dos Pastores, isto nunca aconteceu, mas ocorreram mais ataques aos judeus em consequência das multas.

Filipe reinou por apenas seis anos. Foi atacado de disenteria e febres a partir de Agosto de 1321, provavelmente envenenado com água contaminada por leprosos em Pontou. Depois de cinco meses de sofrimento, morreu em Longchamp, nos arredores de Paris, na noite de 2 para 3 de Janeiro de 1322.

Foi sepultado na basílica de Saint-Denis onde, como outras no mesmo local, foi profanada durante a revolução francesa em 1793. Não deixou descendentes masculinos, pelo que foi sucedido pelo seu único irmão sobrevivente, Carlos IV de França.

  • Descendência

Filipe casou-se uma única vez, em 1307, com Joana da Borgonha, filha de Matilde, condessa de Artois, e Otão IV, conde palatino da Borgonha. Desta união nasceram:

  • Joana III, condessa da Borgonha (1308-1347), casada em 1318 com Odo IV, duque da Borgonha, unindo assim as casas condal e ducal da Borgonha
  • Margarida I de Artois, também condessa da Borgonha, (1310 - 9 de Maio de 1382), casada em 1320 com Luís I da Flandres
  • Isabel de França (1312-1348), casada com Guigues VIII de la Tour du Pin, delfim de Viennois e conde de Albon, e em c.1335 com João III, senhor de Faucogney
  • Branca de França (1313-1358)
  • Luís Filipe de França (1316-1317)
  • Joana (c.1317)

João I



João I de França, cognominado o Póstumo
  • nasceu a 14 de Novembro de 1316
  • faleceu a 19 de Novembro de 1316
  • foi Rei de França,durante os 5 dias de sua vida e foi o décimo terceiro da chamada dinastia dos capetianos directos, e também rei de Navarra e conde de Champagne.
  • Foi o filho póstumo do rei Luís X de França (falecido a 5 de Junho de 1316), pela sua segunda esposa Clemência da Hungria.

Na data da morte de Luís X de França, Clemência da Hungria estava grávida, pelo que a sucessão do trono ficou uma incógnita, havendo três pretendentes

  • No caso de um filho varão, este herdaria a coroa da França.
  • Se nascesse outra menina, a sua filha Joana poderia subir ao trono, apesar de não haver precedentes de uma mulher ter sido coroada rainha governante da França. Ao contrário, Navarra tinha este precedente e no futuro aceitaria esta como soberana.
  • Mas poderia ser decidida a necessidade de descendência varonil, pelo que Filipe de Poitiers, irmão do falecido rei e regente durante a gestação da cunhada, sob alegações de que a rainha grávida não podia assumir o governo do país, herdaria a França.

O assunto parecia resolvido com o nascimento de um filho varão, João I de França, o Póstumo, na noite de 14 para 15 de Novembro de 1316. Mas João viveu apenas durante alguns dias, falecendo a 19 de Novembro, de forma misteriosa, durante a cerimónia de apresentação aos barões da França.

Apesar de serem lançadas várias teorias de conspiração sobre este óbito que, mesmo fazendo sentido, não estão provadas, não é particularmente extraordinária a morte de um bebé no início do século XIV. Mesmo com as condições privilegiadas de uma das casas reais mais evoluídas da Europa, é necessário ter em conta a taxa de mortalidade infantil da época.

Clemência da Hungria abandonou a corte e foi para Avinhão. João I foi sepultado na basílica de Saint-Denis.

À nobreza do reino foi posta a questão da legitimidade da princesa Joana, nascida do primeiro matrimónio de Luís X, à sucessão do trono francês.

De facto, era a primeira vez que ocorria a ausência de um herdeiro varão directo. A sucessão que começara por ser electiva no início da dinastia capetiana, passara a dinástica varonil.

Havendo inclusivamente dúvidas sobre a paternidade de Joana, devido ao caso da Torre de Nesle, a nobreza francesa preferiu alegar a lei sálica. As coroas de França e de Navarra, e o condado de Champagne, foram então oferecidas ao irmão de Luís X e já regente, Filipe V de França.

Várias hipóteses e lendas circularam sobre o bebé real, notavelmente retomadas por Maurice Druon na sua série de livros de romance histórico Os Reis Malditos: Inicialmente, que o seu tio Filipe V mandara envenená-lo, ou os seus apoiantes teriam tomado essa iniciativa.

Uma estranha história ocorrida alguns anos depois veio lançar o rumor que João não morrera.

Durante o cativeiro de João II de França (1356-1360) no seguimento da batalha de Poitiers, um homem chamado Giannino Baglioni pretendeu ser o desaparecido rei e herdeiro da coroa. Tentava fazer valer os seus direitos mas foi preso na Provença, tendo morrido no cativeiro em 1363.

Um livro recente relata esta história. Cola di Rienzo terá forjado documentação para atestar que Giannino Baglioni era João o Póstumo, e depois tentado colocá-lo no trono da França a fim de reforçar o seu poder em Roma. Pouco depois do seu encontro em 1354, Cola di Rienzo foi assassinado, e Giannino aguardou dois anos antes de declarar as suas pretensões.

Dirigiu-se então à corte da Hungria, onde o rei Luís I, sobrinho da rainha Clemência, o reconheceu como filho de Luís X e da sua tia.

Em 1360 Giannino deslocou-se a Avinhão, mas o papa Inocêncio VI recusou recebê-lo. Depois de várias tentativas para se fazer reconhecer, foi preso em Nápoles, onde morreu no cárcere em 1363.

sábado, 13 de novembro de 2010

Luis X



Luís X de França, cognominado o Teimoso, o Cabeçudo, o Turbulento ou ainda o Obstinado

  • nasceu em Paris a 4 de Outubro de 1289
  • morreu em Vincennes, 5 de Junho de 1316
  • foi rei de França de 1314 até à sua morte, o décimo segundo da chamada dinastia dos capetianos directos, e rei de Navarra e conde de Champagne desde 1305, com o nome de Luís I.
Era o filho primogénito de Filipe IV de França e de Joana de Champagne, rainha de Navarra. Os seus irmãos foram Filipe V de França, Carlos IV de França, e Isabel de França, rainha consorte da Inglaterra.

Luís tornou-se rei de Navarra aquando da morte da sua mãe a 2 de Abril de 1305, e rei de França após a morte do seu pai em 1314, tendo sido coroado na catedral de Reims em 24 de Agosto de 1315.

O seu curto reinado ficou marcado pelas consequências do caso da Torre de Nesle, que o condicionou a procurar nova esposa para gerar um herdeiro para o trono. A obstinação com que perseguiu este objectivo e a forma como foi manipulado pelos nobres da sua corte valeram-lhe os seus cognomes (le Hutin em francês).

Em 21 de Setembro de 1305, Luís casara-se com Margarida de Borgonha, também uma capetiana, filha de Roberto II, duque da Borgonha, e de Inês de França, filha de São Luís.

Da união nasceu uma filha, Joana, a 28 de Janeiro de 1312.

Em Abril de 1314, ano da morte do seu pai Filipe o Belo, ocorreu o grande escândalo que marcaria a história da França, com graves consequências na linha sucessória do trono francês: A sua esposa Margarida de Borgonha e Branca de Borgonha, esposa do seu irmão Carlos, foram denunciadas por adultério pela sua irmã Isabel de França, rainha de Inglaterra.

Uma vez que a descendência da dinastia capetiana e do reino da França fora colocada em perigo, o castigo devia ser exemplar. Margarida da Borgonha foi aprisionada em Château-Gaillard, onde ocupou um quarto aberto aos ventos no topo da torre.

Morreu a 30 de Abril de 1315, provavelmente de tuberculose, e segundo algumas versões por estrangulamento, mas as suas rudes condições de encarceramento já eram propícias a uma morte prematura.

Luís casou-se então a 19 de Agosto de 1315 com Clemência da Hungria, também uma capetiana, filha de Carlos Martel de Anjou, rei titular da Hungria, e de Clemência de Habsburgo.

Desta união nasceria João I de França, o Póstumo, cinco meses após o seu falecimento.

Morreu em Vincennes a 5 de Junho de 1316, possivelmente de desidratação, apesar de haver suspeitas de envenenamento

Foi sepultado, tal como a sua segunda esposa e o seu filho, na Basílica de Saint-Denis.

  • Sucessão

Na data da morte de Luís X, Clemência da Hungria estava grávida, pelo que a sucessão do trono ficou uma incógnita, havendo três pretendentes:

  • No caso de um filho varão, este herdaria a coroa da França.
  • Se nascesse outra menina, a sua filha Joana poderia subir ao trono, apesar de não haver precedentes de uma mulher ter sido coroada rainha governante da França. Ao contrário, Navarra tinha este precedente e no futuro aceitaria esta como soberana.
  • Mas poderia ser decidida a necessidade de descendência varonil, pelo que o seu irmão Filipe, regente durante a gestação da cunhada, herdaria a França.
O assunto parecia resolvido com o nascimento de um filho varão, João I de França, o Póstumo, na noite de 14 para 15 de Novembro de 1316. Mas João viveu apenas durante alguns dias, falecendo a 19 de Novembro de forma misteriosa durante a cerimónia de apresentação aos barões.

À nobreza do reino foi posta a questão da legitimidade da princesa Joana, nascida do primeiro matrimónio, à sucessão do trono francês. De facto, era a primeira vez que ocorria a ausência de um herdeiro varão directo.

A sucessão que começara por ser electiva no início da dinastia capetiana, passara a dinástica varonil. Havendo inclusivamente dúvidas sobre a paternidade de Joana, devido ao caso da Torre de Nesle, a nobreza francesa preferiu, alegando a lei sálica, oferecer as coroas de ambos os reinos, e o condado de Champagne, ao irmão de Luís X e já regente, Filipe V de França.

  • Casamentos e descendência
  • Do seu primeiro casamento com Margarida da Borgonha, de 21 de Setembro de 1305 a 30 de Abril de 1315, nasceu:
Joana II de Navarra, (28 de Janeiro de 1312 - 6 de Outubro de 1349), sucessora do seu tio Carlos IV de França no trono de Navarra, de 1328 até à sua morte
  • Luís casou-se em segundas núpcias a 13 de Agosto de 1315 com Clemência da Hungria, de quem teve:
João I de França o Póstumo (14 de Novembro de 1316 - 19 de Novembro de 1316), sucessor do pai nos tronos de França e Navarra e no condado de Champagne

  • De uma criada chamada Eudeline, teve ainda uma filha ilegítima:
Eudeline (1305-1380), freira no convento de Faubourg Saint Marcel em Paris, e depois abadessa

sábado, 26 de junho de 2010

Filipe IV



  • cognominado o Belo, o rei de Mármore ou o rei de Ferro
  • nasceu em Fontainebleau em 1268
  • morreu em Fontainebleau a 29 de Novembro de 1314
  • foi rei de França de 1285 até a sua morte, o décimo primeiro da chamada dinastia dos capetianos directos. Por casamento com Joana I de Navarra foi também rei de Navarra e conde de Champagne de 1284 a 1305.
O cognome o Belo deve-se à sua extraordinária beleza, segundo relatos contemporâneos. Também apelidado pelos seus inimigos e admiradores de o rei de Mármore ou o rei de Ferro, foi notável pela sua personalidade rígida e severa.

Um dos seus mais ferozes oponentes, o bispo Bernardo Saisset de Pamiers, disse sobre o rei: «Não é um homem nem uma besta. É uma estátua».

Filipe IV foi um rei polémico, estando na origem da tentativa de deposição do papa Bonifácio VIII e da transferência do papado para a cidade de Avinhão, e criando as condições para, algumas décadas depois da sua morte, a eclosão da Guerra dos Cem Anos.

No seu reinado suprimiu a Ordem dos Cavaleiros Templários a 13 de Outubro de 1307, facto que provavelmente esteve na origem da superstição de as sextas-feiras dia 13 serem dias aziagos.

  • Subida ao trono

Segundo filho de Filipe III de França com Isabel de Aragão, Filipe o Belo nasceu no castelo de Fontainebleau no ano de 1268. Quando o seu irmão mais velho morreu aos 12 anos de idade em 1276, tornou-se no herdeiro do trono. Teve como preceptor Guilherme d'Ercuis, o capelão do seu pai.

Em 1284-1285 participou da cruzada aragonesa, a fracassada campanha francesa na Catalunha para depor o rei Pedro III de Aragão e colocar no seu lugar Carlos de Valois, o seu irmão mais novo.

Com a derrota militar e a epidemia de disenteria que marcaram o fim desta campanha e afectaram o rei Filipe III, assumiu a liderança da hoste.

Tentou negociar a passagem da família real através dos Pirinéus mas recebeu uma recusa do rei aragonês, e depois sofreu uma pesada derrota na batalha travada a 30 de Setembro e 1 de Outubro, na qual Pedro massacrou o exército francês mas poupou a família real. Com a morte do rei de França em Perpinhã a 5 de Outubro, por disenteria, Filipe subiu ao trono e abandonou a campanha.

Foi coroado a 6 de Janeiro de 1286 na catedral de Reims.

  • Consolidação do poder real

Determinado a fortalecer a monarquia, Filipe confiou, mais do que qualquer dos seus predecessores, na burocracia profissional de legalistas. Auxiliado por ministros como Pierre Flote, Guilherme de Nogaret e Enguerrand de Marigny, favoreceu o desenvolvimento das instituições administrativas e judiciárias.

Homem solene e silencioso, ao seu povo parecia distante do governo e, tendo encarregado os seus ministros de políticas específicas, especialmente as impopulares, foi chamado de "coruja inútil" pelos seus contemporâneos.

Na verdade o seu reinado marcou a transição da França, de uma monarquia carismática, passível de perder muito do seu poder sob um rei incapaz, para um reino burocrático, na direcção da modernidade.

Um ano antes de subir ao trono, a 14 de Agosto de 1284, o Belo casara-se, aos 16 anos de idade, com Joana I de Navarra, filha de Henrique I de Navarra e Branca de Artois. O matrimónio conferiu-lhe os títulos de rei de Navarra e conde de Champagne, como Filipe I, até à morte da sua esposa a 4 de Abril de 1305.

O principal benefício administrativo desta união era que a herança de Joana em Champagne e Brie, adjacente aos domínios reais na Ile-de-France, foi efectivamente unida às terras do rei, formando uma ampla área. Durante os reinados de Joana e dos seus três filhos (1284–1328), estas terras pertenciam à pessoa do rei.

Mas em 1328 já se encontravam tão ligadas aos domínios reais que o Filipe VI de França (da casa de Valois, não um herdeiro de Joana) fez uma troca de terras com a herdeira dessa época, Joana II de Navarra. Estes territórios permaneceram com a coroa francesa, tendo Joana II recebido terras no oeste da Normandia em compensação.

O reino de Navarra nos Pirinéus não tinha a mesma importância para os interesses da época dos monarcas franceses. Permaneceu em união pessoal de 1284 a 1328, tendo depois revertido para Joana II de Navarra e para a casa de Évreux. Outras adições de Filipe aos domínios reais foi Lião em 1312 e a compra da região de Quercy (aproximadamente o actual departamento de Lot) à Inglaterra por 3.000 libras.

  • Política externa
Relações com os mongóis

No seguimento da política externa de São Luís, Filipe teve vários contactos com o Ilkhanato mongol no Médio Oriente, que pretendia obter a cooperação de reinos cristãos para a luta contra os muçulmanos. Recebeu a embaixada do monge sino-mongol Rabban Bar Sauma, e um elefante como presente. Filipe terá respondido com uma positiva à solicitação.


O rei francês também ofereceu presentes à embaixada e enviou um dos seus nobres, Gobert de Helleville, para os acompanhar até aos domínios mongóis. Este partiu a 2 de Fevereiro de 1288, juntou-se a Bar Sauma em Roma e seguiram para a Pérsia

De Bagdade, Arghun Khan voltou a escrever em 1289, em reposta a uma carta de Filipe de 1288, reafirmando a cooperação militar, exortando-o a conquistar o Egipto, em troca do qual o mongol oferecer-lhe-ia Jerusalém.

Ao contrário do seu avô Luís IX de França, Filipe IV não deu continuidade a estes planos sob a forma de uma cruzada. No entanto, organizou uma colaboração militar com os mongóis através dos Cavaleiros Templários contra os mamelucos. O plano era coordenar as acções entre as ordens militares cristãs, o rei e a aristocracia de Chipre e do Reino Arménio da Cilícia, e os mongóis do Ilkhanato.

De 1298 a 1302, o grão-mestre Jacques de Molay esteve no Próximo Oriente a combater os mamelucos e a aguardar a ligação com as forças mongóis, o que não chegou a acontecer

Em Setembro de 1302 os Templários foram expulsos da sua fortaleza em Arwad e quando Ghazan, o khan mongol da Pérsia, morreu em 1304, acabaram os planos de uma rápida reconquista da Terra Santa.

Em Abril de 1305, o novo governante mongol Oljeitu enviou cartas para Filipe, para o papa, e para Eduardo I da Inglaterra. Mais uma vez ofereceu uma aliança militar e as nações europeias prepararam uma cruzada, mas houve atrasos na preparação e esta acabou por nunca se realizar.

Entretanto o filho de Oljeitu assinou um tratado em Alepo com os mamelucos em 1322.

  • Guerra com a Inglaterra
O início de hostilidades com a Inglaterra em 1294 era o resultado inevitável das monarquias competitivas e expansionistas, despoletado por um secreto pacto franco-escocês de ajuda mútua contra Eduardo I.

Foram realizadas campanhas inconclusivas pelo controlo da Gasconha em 1294–1298 e em 1300–1303. Filipe ocupou a Flandres em 1300 e conquistou a Guienne, mas foi obrigado a devolver este último território aos ingleses e a dar a sua irmã Margarida de França em casamento ao monarca inglês em 1299.

Há décadas que não ocorria um importante conflito na Europa, e entretanto a natureza da guerra tinha mudado: tornara-se mais profissional, tecnologicamente mais avançada e muito mais dispendiosa. A procura de rendimentos para pagar as despesas militares marcou o reinado de Filipe e a reputação que criou para os seus contemporâneos
.
Segundo os termos do tratado de Paris de 1303, foi acordado o casamento de Isabel, filha de Filipe, com Eduardo, príncipe de Gales e herdeiro de Eduardo I. A união ocorreu em Bolonha a 25 de Janeiro de 1308, e pretendia selar uma paz. Em algumas décadas levaria a uma eventual pretensão inglesa ao trono francês e à Guerra dos Cem Anos.

  • Invasão da Flandres
A 11 de Julho de 1302 a França sofreu derrota embaraçosa de um exército de 2.500 nobres (cavaleiros e escudeiros) e 4.000 soldados de infantaria, enviado para suprimir uma revolta na Flandres, na batalha das esporas douradas, perto de Kortrijk.

O Rei de Ferro reagiu energicamente e liderou pessoalmente uma vitoriosa campanha com a batalha de Mons-en-Pévèle, na actual região de Nord-Pas-de-Calais, dois anos depois. Em 1305 obrigou os flamengos a aceitar um desvantajoso tratado de paz que obrigou a fortes reparações e penalidades humilhantes, e adicionou as ricas cidades de Lille e Douai, grandes produtoras de tecidos, ao território real.

Béthune, a primeira cidade a render-se, foi concedida a Matilde, condessa de Artois. Para garantir a sua fidelidade, as suas duas filhas, Joana e Branca, casaram-se com Filipe e Carlos, respectivamente, filhos de Filipe IV.

  • Política religiosa

Conflito com o papado


Para financiar estas guerras, Filipe IV viu-se obrigado a recorrer a várias desvalorizações da moeda entre 1290 e 1309. Como medida de curto prazo, perseguiu os judeus de modo a tomar os seus bens, prendendo e chegando a expulsá-los dos territórios franceses em 1306.

Também confiscou os bens dos banqueiros lombardos em 1292 e de abades mais abastados. Para a história ficou a condenação destas acções e dos seus gastos excessivos pelos seus inimigos na Igreja Católica, uma vez que os cronistas deste tempo eram na maioria monges.

Quando lançou alguns impostos sobre o clero, de cerca de metade do seu rendimento anual, iniciou um conflito com o papado. A 24 de Fevereiro de 1296, o papa Bonifácio VIII emitiu a epístula decretal Clericis laicos, proibindo a transferência de qualquer propriedade da Igreja para a coroa francesa sem o acordo prévio de Roma, e a incitar uma aberta batalha diplomática contra o rei.

A Nogaret juntou-se um inimigo pessoal de Bonifácio, Sciarra Colonna, membro da nobreza romana, que lhe indicou que o papa se refugiara em Anagni. Encontraram-no só, um homem de 68 anos de idade, na grande sala do palácio episcopal, abandonado pelos seus partidários. Sentado numa alta cadeira, com hábitos de cerimónia, não reagiu à irrupção dos homens armados.

À aproximação do francês e do italiano, inclinou ligeiramente a cabeça e declarou: "Eis a minha cabeça, eis a minha tiara: morrerei, é certo, mas morrerei papa". Guilherme de Nogaret recuou, impressionado, enquanto Sciarra Colonna, no seu ódio por Bonifácio VIII, avançou e lhe deu uma bofetada, com a mão coberta pela luva de ferro da armadura. Sob a violência do golpe, o papa caiu do trono para o chão.

Pouco depois, a população de Anagni, envergonhada de ter abandonado o papa, acorreu ao palácio e perseguiu a destacamento francês, mas tarde demais: a violência a que fora sujeito perturbara a sanidade mental de Bonifácio. Morreu no mês seguinte, sem reconhecer os seus conhecidos e a recusar a extrema unção.

Envolvido em outros problemas com os aragoneses da Sicília e a família Colonna, o papa acabou por ceder, compondo as bulas Romana mater (Fevereiro de 1297) e Etsi de statu (Julho de 1297). Esta última continha uma renúncia formal à defesa dos bens eclesiásticos contra o arbítrio real da decretal Clericis laicos.

No mesmo ano canonizou o rei Luís IX de França sob o nome de São Luís da França, um processo impulsionado por Filipe IV.

Mas em 1300, pela bula Unam Sanctam, Bonifácio declarou a superioridade do poder espiritual sobre o poder temporal, e por consequência, a superioridade do papa sobre os Reis, que responderiam perante o líder da Igreja. Era de facto uma tentativa de instauração de uma teocracia na Europa ocidental.

Filipe respondeu proibindo a exportação de dinheiro francês para os Estados Pontifícios e convocou uma assembleia de bispos, nobres e grandes burgueses de Paris. Esta seria a precursora dos Estados Gerais que também surgiriam pela primeira vez no seu reinado, mais uma medida profissional e organizativa que os seus ministros introduziram no governo.

O rei saiu vitorioso do encontro, adoptando uma política de independência em relação à Santa Sé e opondo-se ao papa. Procurou então o apoio de todos os seus súbditos a fim de legitimar a sua luta. Bonifácio VIII ameaçou-o de excomunhão e de interdição (o equivalente à excomunhão, aplicada a um território) sobre o reino da França.


Legalistas franceses falsificaram a bula para a tornar injuriosa ao poder civil e à França. Com um forte apoio no seu reino, em 1303 o Belo enviou o seu conselheiro Guilherme de Nogaret com uma pequena escolta armada para a Itália, com o objectivo de prender o papa e de o levar a julgamento perante um concílio.

Este episódio, conhecido como o atentado de Anagni tornar-se-ia em um dos grandes escândalos do reinado de Filipe IV. A sua narrativa popular teve uma grande importância na reputação de poder e implacabilidade d'o Rei de Ferro, apesar de não ter estado directamente envolvido no incidente.

Em 1305, depois da morte, sob suspeitas de envenenamento, do sucessor Bento XI, o novo papa Clemente V revelar-se-ia mais cooperante. De origem francesa, permitiu o estabelecimento pelo rei francês do papado de Avinhão, em um enclave no sul da França, e seria uma ajuda preciosa na supressão da Ordem dos Templários.

  • Supressão da Ordem dos Templários

Inicialmente formada para proteger os peregrinos que se dirigiam a Jerusalém, a Ordem dos Cavaleiros Templários acumulou grandes riquezas e que, supostamente, só deveria responder perante o papa.

Com graves problemas de caixa e tendo de recorrer aos Templários para custear sua corte, o Rei Filipe IV e o Papa Clemente V, este sob grande dependência de Filipe, tramaram uma forma de acabar com a Ordem e confiscar toda aquela riqueza. Para isso ele pôs em andamento uma estratégia de descrédito, acusando-os de heresia e diversos outros crimes.

A perseguição aos templários começou em 1307 quando o rei da França os acusou de heresia e imoralidade e prendeu Jacques de Molay, então grão mestre da Ordem.

Na sexta-feira dia 13 de Outubro de 1307, centenas de Cavaleiros Templários por toda a França foram presos simultaneamente por agentes de Filipe o Belo. Foram torturados para confessarem a heresia da própria ordem religiosa facto que provavelmente esteve na origem da superstição de as sextas-feiras dia 13 serem dias aziagos.

Em 1312, o papa francês extinguiu a Ordem por uma bula, retirando a sua protecção e o seu estatuto eclesiástico.

Filipe tomou as consideráveis riquezas dos Templários e acabou com o seu sistema bancário monástico. Os seus líderes foram supliciados. Em 1314, o último grão-mestre, Jacques de Molay, foi queimado na fogueira em Paris. De acordo com a lenda, de dentro das chamas este amaldiçoou o rei Filipe IV e sua decendência, o papa Clemente V e o ministro Guilherme de Nogaret, afirmando eles seriam convocados perante o tribunal de Deus no prazo de um ano. De facto, todos os três morreram dentro desse prazo.

  • Posteridade
Morte e legado

Filipe o Belo morreu a 29 de Novembro de 1314 devido a um derrame cerebral, vindo a falecer dias depois de um segundo ataque, no castelo de Fontainebleau. Segundo os documentos e os relatórios de embaixadores, chega-se à conclusão de que tenha sucumbido a uma apoplexia cerebral em zona não motora, que se manifestou pela primeira vez enquanto caçava um cervo com sua tropa, dias antes da recaída mortal.

O seu coração foi transportado para o Mosteiro de Poissy, assim como a cruz dos Templários, e lá permaneceu até à noite de 21 de Julho de 1695, quando um raio caiu sobre a igreja do mosteiro e incendiou-a quase completamente, destruindo a cruz e o coração do rei.

A sua sepultura na basílica de Saint-Denis, como muitas outras, foi profanada em 1793, durante a revolução francesa.

O seu reinado assinalou o declínio do poder papal, depois de um período de autoridade absoluta sobre as nações Europeias.

O final do seu reinado foi marcado também pelo caso da Torre de Nesle, quando as suas três noras foram envolvidas em um escândalo de adultério e crime de lesa-majestade que marcaria a história da França, com graves consequências na linha sucessória do trono francês.

As repercussões deste caso condicionariam os reinados dos seus três filhos, no desejo de darem continuidade à dinastia capetiana.

Nas décadas seguintes seria sucedido pelos seus três filhos varões sobreviventes, um após o outro. A morte do último, Carlos IV, trouxe a coroa para Filipe VI da casa do seu irmão Carlos de Valois. Esta sucessão foi contestada por Eduardo III da Inglaterra, filho da sua filha Isabel, o que originou a Guerra dos Cem Anos entre as duas nações.


  • Descendência

  • Do seu casamento a 14 de Agosto de 1284 com Joana I de Navarra, filha de Henrique I de Navarra e Branca de Artois, nasceram:
  1. Luís X de França (Luís I de Navarra), o Teimoso, o Cabeçudo ou o Turbulento (4 de Outubro de 1289 - 5 de Junho de 1316), sucessor dos pais nos tronos de França e Navarra e no condado de Champagne
  2. Margarida (c.1290-1294), noiva de Sancho IV de Leão e Castela em Novembro de 1294
  3. Isabel de França, a Loba de França (1292 - 21 de Novembro de 1358), casada em 1308 com Eduardo II da Inglaterra
  4. Filipe V de França (Filipe II de Navarra), o Longo, o Comprido ou o Caolho (17 de Novembro de 1293 - 3 de Janeiro de 1322), conde de Poitou, conde palatino da Borgonha por casamento com Joana II, Condessa da Borgonha, e sucessor do irmão Luís nos tronos de França e Navarra, e no condado de Champagne
  5. Branca (c.1293 - c.1294)
  6. Carlos IV de França (Carlos I de Navarra), o Belo (18 de Junho de 1294 - 1 de Fevereiro de 1328), conde de la Marche e sucessor do irmão Filipe tronos de França e Navarra, e no condado de Champagne
  7. Roberto (1297-1308)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Filipe III

Filipe III de França, cognominado o Bravo ou o Ousado
  • nasceu em Poissy a 30 de Abril de 1245
  • morreu em Perpinhã a 5 de Outubro de 1285
  • foi rei de França de 1270 até à sua morte, o décimo da chamada dinastia dos capetianos directos, e também conde de Orleães até à sua subida ao trono

  • Subida ao trono

Não sendo o primogénito do rei São Luís de França, o príncipe Filipe não fora destinado a reinar, e só com a morte do seu irmão Luís em 1260 se tornou herdeiro do trono.

Nesse momento já com quinze anos de idade, demonstrava menores aptidões do que o seu irmão, devido ao seu carácter doce, submisso, tímido e versátil, quase esmagado pelas fortes personalidades dos seus pais.

A sua mãe Margarida da Provença fez-lhe prometer que ficaria sob a sua tutela até à idade de trinta anos, mas o seu pai solicitou a quebra deste juramento ao papa, preferindo beneficiar o seu filho com uma melhor educação.

Assim, a partir de 1268 nomeou Pierre de la Broce como seu mentor. São Luís encarregou-se também de lhe ministrar os seus próprios conselhos, redigindo os seus Ensinamentos, para lhe incutir em primeiro lugar a noção de justiça como primeiro dever do rei.

Recebeu também uma educação muito religiosa, com Guilherme d'Ercuis como seu capelão, e que depois seria o preceptor do seu filho Filipe o Belo.

Recentemente casado com Isabel de Aragão e pai de uma criança, o futuro Filipe IV de França, Filipe III acompanhou o seu pai na Oitava Cruzada a Túnis, em 1270.

Depois da tomada de Cartago, o exército sofreu uma epidemia de disenteria que não poupou a família real. João Tristão, outro filho de São Luís, foi o primeiro a falecer, e a 25 de Agosto morria o rei.

Filipe foi assim proclamado rei com o nome de Filipe III em Túnis. De personalidade fraca, muito pio mas bom cavaleiro, deveu o seu cognome de o Bravo mais ao seu valor em combate do que à força de carácter, primeiro dominado pelos pais, depois por Pierre de la Broce e por fim pelo seu tio Carlos de Anjou.

Revelou-se incapaz de comandar o exército, afectado pela morte do pai, e acabou por decidir deixar o teu tio Carlos de Anjou a negociar uma trégua de dez anos com os mouros que lhe permitiu voltar à França.

Outras mortes se seguiriam. Em Dezembro, em Trápani, o seu cunhado Teobaldo II de Champagne, rei de Navarra; no mês seguinte na Calábria, Isabel de Aragão ainda grávida do seu quinto filho; em Hyères, a sua irmã Isabel, esposa de Teobaldo; e em 21 de Agosto do ano seguinte ainda morreria o seu tio Afonso III de Poitiers.

Quando voltou a Paris a 21 de Maio de 1271, começou por prestar homenagem às vítimas, que também foram numerosas entre os soldados. Só depois foi sagrado rei de França a 12 de Agosto, na catedral de Reims.

  • Reinado

A subida de Filipe III ao trono foi acompanhada de perturbações no panorama político: a morte do rei Henrique III da Inglaterra e o fim de uma longa disputa pelo trono do Sacro Império Romano-Germânico.

Por outro lado, as ambições da Europa já não passavam pela cruzadas. Assim, enquanto estes foram os principais problemas do reinado do seu pai, o seu reinado seria principalmente marcado por conflitos territoriais, contestações de heranças e guerras de vassalagem, fenómenos que se acentuariam ainda mais no reinado do seu filho.

Filipe III conservou a maioria dos oficiais e conselheiros do seu pai, tal como Pierre de la Broce como camareiro (até à sua condenação à morte por enforcamento em 1278) e Eustache de Beaumarchais, senescal de Poitou, Toulouse e Auvérnia.

  • Política interna
Por heranças, anexações, compras, uniões e guerras, Filipe III não parou de tentar aumentar os domínios da coroa e de afirmar a sua autoridade. Em 1271-1272 realizou a sua primeira transacção territorial ao incorporar a herança do seu tio Afonso III de Poitiers aos domínios reais: o condado de Toulouse, Poitou e parte da Auvérnia.

No entanto foi forçado a ceder Agen, Saintonge e Ponthieu ao rei Eduardo I da Inglaterra pelo tratado de Amiens de 1279. Também herdou os condados de Perche e de Alençon do seu irmão Pedro, falecido em 1283.

Teve a ocasião de fazer os primeiros feitos de armas do seu reinado em 1272, quando convocou a hoste real contra os condes de Foix e de Armagnac que contestaram o seu poder.

O segundo rendeu-se e o primeiro foi derrotado e aprisionado, tendo no entanto as suas terras restituídas em 1277.

Filipe também comprou os condados de Nemours em 1274 e de Chartres em 1284, e adquiriu várias cidades, como Harfleur e Montmorillon. Retirou a autoridade do rei Jaime II de Maiorca sobre Montpellier mas cedeu o condado de Venaissin ao papa Gregório X em 1274.

Por fim levou a cabo uma política matrimonial eficaz:

Instigando o casamento da sua prima Matilde de Artois com Otão IV, conde da Borgonha, preparou a aproximação desta região, pertencente ao Sacro Império Romano-Germânico, ao reino da França.

Interveio em Navarra após a morte de Henrique I. Este deixara uma única filha e herdeira, Joana, sob a tutela da sua viúva Branca de Artois e de Fernando de La Cerda. Branca prometeu Joana em casamento a Filipe o Belo, filho de Filipe III.

Os territórios de Champagne e Navarra passaram a ser administrados pela França pelo tratado de Orleães de 1275 e o matrimónio ocorreu em 1284.

Champagne seria definitivamente anexado aos domínios reais em 1314.

Do ponto de vista das instituições, Filipe III introduziu várias novidades:

  • Definiu a maioridade dos reis da França aos 14 anos.
  • Afirmou a justiça real, em detrimento das justiças senhoriais, instituindo um tribunal real em cada uma das áreas de influência dos bailios e dos senescais, seus oficiais.
  • Instituíu multas aos nobres que não comparecessem à convocação para a hoste real.
  • Criou um imposto sobre as transmissões de feudos.
  • Institucionalizou a segregação dos judeus.


  • Política externa
Em Castela, após a morte em 1275 do seu cunhado e herdeiro deste reino, Fernando de La Cerda, Filipe III tomou sem sucesso o partido dos filhos deste, designados sucessores por Afonso X de Castela, no seu conflito contra Sancho IV de Leão e Castela.

Na Itália apoiou o papa Martinho IV contra os gibelinos, conduzindo uma expedição punitiva à Romanha. Também apoiou a política siciliana do seu tio Carlos de Anjou após os massacres das Vésperas sicilianas a 30 de Março de 1282, que resultaram no assassinato e na expulsão dos franceses da ilha.

Os sicilianos tinham enviado uma embaixada a Pedro III de Aragão, oferecendo-lhe a coroa desse reino, a que tinha direito graças ao seu matrimónio com Constança de Hohenstaufen. Este dirigiu-se então à Sicília, desembarcando em Trapani a 30 de Agosto do mesmo ano e sendo coroado rei na cidade de Palermo a 4 de Setembro.

Pedro III enviou imediatamente uma embaixada a Carlos de Anjou, que se encontrava em Messina, intimando-o a reconhecê-lo como rei da Sicília e a abandonar a ilha. A derrota da frota angevina em Nicoreta, às mãos do almirante Rogério de Lauria, obrigou Carlos a deixar Messina e refugiar-se no seu agora "reino de Nápoles".

O papa Martinho IV respondeu à coroação siciliana de Pedro III, considerado o instigador das acções deste territórios contra os franceses, com a sua excomunhão a 9 de Novembro de 1282 e a sua deposição como rei de Aragão a 21 de Dezembro de 1283.

Ofereceu a sua coroa a Carlos de Valois, o segundo filho de Filipe III, que foi investido a 27 de Fevereiro de 1284, e declarou uma cruzada contra Aragão.

Em 1285, depois da morte de Carlos de Anjou, o Bravo liderou a fracassada cruzada aragonesa contra a Catalunha, que foi chamada de "talvez a mais injusta, desnecessária e calamitosa empresa jamais tomada pela monarquia capetiana".

O exército francês, que incluía 16.000 cavaleiros, 17.000 besteiros e uma infantaria de 100.000 homens, para além de 100 navios, entrou em Rossilhão.

Apesar do apoio de Jaime II de Maiorca à cruzada, a população local levantou-se contra os invasores. A cidade de Elne foi valentemente defendida pelo chamado bastardo de Rossilhão, o filho ilegítimo de Nuno Sanches, anterior conde deste território.

Eventualmente os locais foram derrotados, a catedral foi queimada e as forças francesas seguiram em frente.

Os franceses então cercaram (a 26 de Junho) e tomaram (a 7 de Setembro) a cidade de Girona, após forte resistência, e Carlos de Valois foi coroado. Mas tiveram que retirar-se imediatamente, em consequência do regresso da frota aragonesa da Sicília, mais uma vez ao comando de Rogério de Lauria, que infligira uma derrota total à esquadra francesa a 4 de Setembro. Ao mesmo tempo que faziam uma retirada desastrosa, foram atacados por uma epidemia de disenteria que não poupou o próprio rei Filipe III de França.

O seu filho Filipe o Belo tentou negociar a passagem da sua família real através dos Pirinéus mas recebeu uma recusa, e depois sofreu uma pesada derrota na batalha travada a 30 de Setembro e 1 de Outubro, na qual Pedro massacrou o exército francês mas poupou a família real. No entanto, o rei de França morreria em Perpinhã a 5 de Outubro, sendo sepultado em Narbona e posteriormente transladado para a basílica de Saint-Denis.

Em A Divina Comédia, Dante vê o espírito de Filipe III fora dos portões do purgatório, acompanhado de outros governantes europeus do seu tempo. O autor não nomeia o monarca francês directamente, mas refere-se a ele como "o de pequeno nariz" e "o pai da Peste da França" (referindo-se à suposta maldição lançada pelo grão-mestre templário Jacques de Molay a Filipe IV de França).

  • Casamentos e descendência

  • Filipe casou-se pela primeira vez a 28 de Maio de 1262, em Clermont-Ferrand, com Isabel de Aragão, filha de Jaime I de Aragão e Iolanda da Hungria. Ao acompanhar o então príncipe herdeiro à Oitava Cruzada, esta morreu de uma queda de cavalo na Calábria, no caminho de volta à França, grávida do seu quinto filho. Deste casamento nasceram:
  1. Luís (1264-1276)
  2. Filipe IV de França (1268 - 29 de Novembro de 1314)
  3. Roberto (1269-1276)
  4. Carlos, Conde de Valois (12 de Março de 1270 - 16 de Dezembro de 1325)
  • A 21 de Agosto de 1274, em Vincennes, Filipe casou-se em segundas núpcias com Maria de Brabante, filha de Henrique III, Duque de Brabante e Adelaide da Borgonha. Desta união nasceram:
  • 5. Luís, Conde d'Évreux (Maio de 1276 - 19 de Maio de 1319)
  • 6 Branca de França (1278 - 19 de Março de 1305), casada em 1300 com o rei Rudolfo de Habsburgo, rei da Boémia e duque da Áustria
  • 7.Margarida de França (1282 - 14 de Fevereiro de 1317), casada em 1299 com o rei Eduardo I de Inglaterra

terça-feira, 6 de abril de 2010

Luís IX



  • nasceu em Poissy em França a 25 de Abril de 1214
  • morreu em Tunis no Norte de África a 25 de Agosto de 1270)
  • foi rei de França de 1226 até à sua morte.
No seu reinado a França viveu um excepcional momento político, económico, militar e cultural, conhecido como o "o século de ouro de São Luís". Houve um grande desenvolvimento da justiça real, passando o monarca a representar o juiz supremo.

Participou também da Sétima Cruzada e da Oitava Cruzada, tendo morrido no decurso desta última, o que influenciou em grande medida a sua posterior canonização no reinado do seu neto Filipe o Belo.

  • Infância
São Luís nasceu no castelo de Poissy, a 30 quilómetros de Paris, a 25 de Abril( no dia de S.Marcos) de 1214 ou 1215, dia de procissões solenes do dia de São Marcos.

O futuro rei da França nasceu praticamente com um dos mais importantes concílios realizados pela Igreja Medieval. O Concílio Latrão IV, que foi convocado pelo Papa Inocêncio III, em uma bula de 1213 e se reuniu em 11 de novembro de 1215.

Um claro esforço de se produzir uma reforma dentro da Igreja. Do muito que se formatou (ou reformatou) da vida religiosa dos cristãos, tanto laicos quanto seculares, tentando deixá-la menos superficial, destacamos neste concílio a decisão de combater, de maneira efectiva (leia-se violenta), a heresia cátara.

Há nele indícios do que seria a Inquisição (legalizada pelo Papa Gregório IX na bula Excommunicamus, de 1231). O concílio também legislou sobre os judeus, que ficaram proibidos de se casaram com não-judeus, impedidos de assumir cargos públicos e suas roupas deviam trazer elementos que os identificassem.

Tradicionalmente, depois de Filipe I de França, os Reis capetianos baptizavam os seus primogénitos com o prenome do avô.

Luís IX filho de Luís VIII de França e Branca de Castela, sendo o seu irmão Filipe o herdeiro da coroa até à morte deste em 1218.

Luís IX não o foi o primeiro filho, mas sim o sexto. Na sua frente na linha sucessória ao trono da França estava seu irmão mais velho Filipe (1209-1218), o terceiro rebento do casal. Os anteriores, Branca, a primogénita morreu com apenas um ano de vida e Inês nasceu morta. E antes de Luís IX, o casal real ainda teve João e Afonso, gémeos natimortos.

A sua infância terá sido influenciada pela figura do seu pai que, unindo o zelo pela religião à bravura marcial que lhe valeu o cognome de o Leão, subjugou os cátaros do sul da França.

Os Cátaros, também chamados de "homens azuis", eram adeptos de uma seita religiosa que se caracterizava por ser maniqueísta, propondo a existência de dois deuses, um "Bom", outro "Mal". Mesmo se identificando como cristãos, foram declarados heréticos e violentamente perseguidos. Esta seita se desenvolveu com mais força no sul da actual França, numa região chamada Albi, daí os cátaros serem conhecidos também por albigenses.


Particularmente zelosos da sua educação, os pais de Luís IX deram-lhe bons preceptores: Mateus II de Montmorency, Guilherme des Barres, conde de Rochefort, e Clemente de Metz, marechal da França, inspiraram-lhe os sentimentos de um rei cristianíssimo e filho da Igreja.

Sua mãe, Branca de Castela, repetia a quem quisesse ouvir que preferia ver o filho morto a vê-lo pecador. Foi neste ambiente, onde a religião se confundia com a própria vida, que o príncipe infante cresceu, esperando o momento em que se tornaria rei.

Salvo sua morte, a coroação era uma certeza, já que os reis da dinastia capetíngea tinham como costume anunciar os sucessores ainda em vida (prática instituída por Hugo I, capeto e seguida por praticamente toda dinastia)

Da mesma forma, mais tarde Luís interessar-se-ia pela educação, particularmente a religiosa, dos seus filhos. Ensinar-lhes-ia orações, a necessidade de assistir à missa e de fazer penitência. Conta-se também por exemplo que às sextas-feiras não permitia que usassem qualquer ornamento na cabeça, por ter sido o dia da coroação de espinhos de Jesus Cristo.

  • Reinado
  • Regência de Branca de Castela
Com a morte do seu pai em 8 de Novembro de 1226, Luís IX subiu ao trono aos 12 anos de idade. Foi sagrado na catedral de Reims por Jacques de Bazoches, bispo de Soissons, em 30 de Novembro do mesmo ano.

Por testamento de Luís VIII, a mãe do jovem monarca assumiu a regência de França com o título de «baillistre», guardião da tutela do rei.

Bartolomeu de Roy, o velho camareiro da corte havia vinte anos, era o mais influente conselheiro do reino, pelo que se disse na época que o poder passava assim "entre as mãos de uma criança, de uma mulher e de um velho".

De personalidade forte, Branca de Castela encarnava a glória de ser filha, sobrinha, esposa, irmã e tia de Reis. Com efeito, o seu pai foi Afonso VIII de Castela, os reis da Inglaterra Ricardo Coração de Leão e João sem Terra eram seus tios, Luís VIII de França seu esposo, Henrique I de Castela e Berengária de Leão e Castela seus irmãos, Luís IX de França e Carlos I da Sicília e Nápoles seus filhos, Sancho II de Portugal e Afonso III de Portugal seus sobrinhos através da sua irmã Urraca e Fernando III de Leão e Castela também seu sobrinho através da sua irmã Berengária.

Durante a menoridade de Luís IX, a rainha mãe enfrentou as ambições da Inglaterra e as pressões da nobreza do reino, que desejavam valer-se da pouca idade do soberano para retomar os direitos perdidos para os monarcas do último século.

O reino entrou em um período conturbado, com a revolta organizada por Filipe Hurepel, tio do jovem rei e filho legitimado de Filipe Augusto, pela casa de Dreux e pelo duque Pedro Mauclerc da Bretanha.

Depois de sufocar a rebelião, a regente concluiu a conquista do Languedoc iniciada pelo seu esposo ao comprometer o conde Raimundo VII de Toulouse, casando a filha deste, Joana, com o seu filho Afonso. Acabava assim a Cruzada dos Albigenses.

  • Maioridade e casamento
Delicado, louro e de olhos azuis, Luís atingiu a maioridade a 25 de Abril de 1234 mas continuou a manter a mãe numa posição de confiança e poder.

Não há uma data precisa em que se defina a efectiva tomada do poder por Luís, os seus contemporâneos viram o seu reinado como um período de partilha do poder com Branca de Castela. No entanto, os historiadores costumam definir o ano da sua maioridade como aquele em que Luís passou a governar mais tradicionalmente como rei, relegando a mãe para um papel mais de conselheira, se bem que continuou a ser uma poderosa força política até à sua morte em 1252.

Esta organizou o seu casamento, realizado no dia 27 de Maio de 1234, na catedral de Sens, pouco depois de o rei completar 20 anos. A esposa escolhida foi Margarida da Provença, a filha mais velha de Beatriz de Sabóia e do conde Raimundo Berengário IV da Provença e de Forcalquier, e irmã de Leonor, esposa de Henrique III da Inglaterra.

Com esta união pretendia-se agregar este condado ao reino da França, uma vez que Raimundo Berengário IV não tinha um herdeiro varão. Dizia-se que a graça e a natureza haviam dotado a sua esposa de toda sorte de perfeições e de facto foi bem sucedida em prover a dinastia capetingea com herdeiros.

  • Política interna
A partir de 1241 Luís IX parece tomar mais responsabilidades para si no governo do país.

Fez do seu irmão Afonso conde de Poitiers a fim de obrigar a nobreza local a lhe prestar homenagem.

A rebelião de Hugo X de Lusignan permitiu-lhe estabelecer a autoridade real em uma curta campanha, de 28 de Abril de 1242 a 7 de Abril de 1243, e o mesmo tempo aproveitou a situação de vantagem até Quercy (aproximadamente o actual departamento de Lot) para expulsar da lá o rei Henrique III de Inglaterra, que decidira romper a trégua de 1238.


Resolveu antigas divergências com Jaime I de Aragão pelo Tratado de Corbeil, pelo qual o rei francês renunciava a hipotéticos e caducos direitos sobre Aragão, em troca da renúncia do monarca catalão-aragonês a direitos muito concretos sobre vastos territórios no sul da França.

Para selar este tratado, Luís casou a sua filha Branca com o infante Fernando de La Cerda, príncipe herdeiro do reino de Castela, e Jaime I de Aragão casou a sua filha Isabel com o príncipe francês, o futuro rei Filipe III de França.

Na administração do reino, Luís IX designou inspectores gerais, que eram considerados funcionários públicos, criou a comissão judicial da cúria e instituiu uma comissão de fazenda e de inspecção de contas.

Proibiu aos juízes, oficiais e outros emissários seus enviados às províncias para ali exercerem justiça durante algum tempo, de adquirir bens e empregar os seus filhos.

Nomeou, acima deles, juízes extraordinários para examinar a conduta dos primeiros e rever os seus julgamentos, funcionando como justiça de apelação. Para a pessoa do rei ficava reservado o papel de juiz supremo.

Segundo os relatos da época, se entendia que os seus oficiais tivessem agido mal, impunha em primeiro lugar uma severa penitência a si mesmo, como culpado pelo excesso praticado pelos seus representantes, e em seguida ministrava-lhes severa punição, obrigando-os a restituir o que haviam tomado do povo, se fosse esse o caso, ou a reparar aqueles que haviam sido condenados injustamente.

Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e os fazia ascender a funções mais honrosas

. Foi também o primeiro rei a proibir duelos, anteriormente tolerados e por vezes ordenados a fim de se conhecer o direito das partes.

  • Zelo religioso
Este reinado foi um período de paz e prosperidade para a França, mas também de excepcionais zelo religioso e intolerância, com a intenção de conduzir o povo francês à salvação da alma.

A conduta estreita nos princípios da Sagrada Escritura, com sua visão pouco favorável às mulheres, foram uma constante na sua vida, porém nunca hesitou pegar em armas para defender sua posição de poder, tanto que armou um grande exército para combater o rei inglês Henrique III (1207-1272) que havia invadido o território francês, sendo expulso em 1242.

Assim que subiu ao trono, pôs em prática uma iniciativa administrativa dividida em duas partes. Primeiro, incumbiu representantes de fazerem um levantamento dos problemas mais significativos do reino, que nem sempre eram os mais imediatos, bem como apontar sugestões para a solução de tais problemas. Num segundo momento formou comissões para que implementassem as soluções propostas.

São Luís não negligenciava o cuidado dos pobres, proibiu o jogo e a prostituição e punia a blasfémia. As punições estipuladas eram tão rigorosas que o papa Clemente IV julgou ser necessário atenua-las.

Outro dos traços em que a religiosidade deste monarca se manifestou foi na aquisição da coroa de espinhos e de um fragmento da cruz da crucificação de Jesus Cristo, em 1239-1241, a Balduíno II, imperador de Constantinopla, por 135.000 libras.

Para estas relíquias mandou edificar a capela gótica de Sainte-Chapelle no coração de Paris, que curiosamente só custou 60.000 libras para construir.

Sob este reinado foram também construídas as catedrais de Amiens, Rouen, Beauvais, Auxerre e Saint-Germain-en-Laye.

A compra das relíquias deve ser entendida no contexto de extremo fervor religioso que existia na Europa do século XIII.

A posse destas contribuiu muito para reforçar a posição central do rei da França na cristandade ocidental, bem como para aumentar a fama de Paris, na época a maior cidade da Europa ocidental.

Na época em que as cidades e os governantes competiam pela posse de relíquias sagradas, Luís IX conseguiu colocar algumas das mais ambicionadas na sua capital. É possível ver este acto não só como devoção, mas também uma declaração política: a monarquia francesa a tentar estabelecer o seu reino como a nova Jerusalém dos textos bíblicos.

O monarca francês era zeloso da sua missão de "lugar-tenente de Deus na Terra", da qual fora investido na sua coroação em Reims. De forma a cumprir este dever organizaria duas cruzadas e, apesar de ambas terem fracassado, contribuíram para o seu prestígio. Os seus contemporâneos não teriam compreendido se um rei tão poderoso e piedoso não fosse libertar a Terra Santa.

Para financiar a sua primeira cruzada, perseguiria a comunidade judaica. No século XIII era generalizada a aversão pelos judeus por serem considerados culpados pela morte de Jesus pelos cristãos. Tal como os seus antecessores, São Luís tomou medidas discriminatórias e persecutórias contra esta minoria, também com a intenção de a converter ao cristianismo

Rouelle ou estrela amarela, o emblema obrigatório dos judeus implementado por São Luís na França e empregue pela última vez pelo governo de Vichy

Ordenou a expulsão de todos os judeus envolvidos em actividades de usura e assim pôde confiscar as riquezas destes para financiar os seus projectos. No entanto não eliminou as dívidas dos cristãos: foi perdoado um terço da dívida, mas os outros dois terços deveriam ser enviados para o tesouro real.

Em 1242, supostamente sob solicitação de judeus convertidos ao cristianismo, e que afirmavam que o Talmud continha invectivas contra Cristo e a Virgem Maria, ordenou a queima dos exemplares deste livro religioso em Paris.

Em 1254 ordenou a expulsão dos judeus não convertidos da França, apropriando-se dos seus bens. No entanto, não terá sido feito um controlo muito eficaz para fazer cumprir esta medida, pelo que muitos permaneceram nos locais em que viviam. Alguns anos depois o rei anularia este decreto em troca de um pagamento, em prata, da comunidade judaica ao tesouro real.

Em 1269, em aplicação de uma recomendação do Quarto Concílio de Latrão de 1215, impôs a obrigatoriedade de usarem sinais vestimentas distintivos. Para os homens a rouelle ou estrela amarela ao peito, e para as mulheres um chapéu especial.

Estes sinais permitiam diferencia-los do resto da população e ajudar a impedir os casamentos mistos.

Para além da legislação contra os judeus e a usura, o rei alargou o alcance da Inquisição na França. A área mais visada foi o sul do país, onde a heresia cátara tinha sido mais forte. A quantidade de confiscas atingiu o ponto máximo nos anos anteriores à Sétima Cruzada, e diminuiu aquando do seu regresso à Europa em 1254.

Em todos estes actos, Luís tentava cumprir o que se encarava ser o dever da França, chamada de "a filha mais velha da Igreja" (la fille aînée de l'Église), com uma tradição de protectora da Igreja desde os tempos dos francos e de Carlos Magno, que fora coroado pelo papa em Roma no ano de 800.

Do ponto de vista econômico foi decididamente inovador: em agosto de 1266, introduziu um novo sistema monetário, baseado na moeda de prata de Tours (gros tournois), em substituição à antiga moeda carolíngia, extremamente desvalorizada, e também cunhou moedas de ouro, chamadas "escudo".

De facto, para além dos títulos Rex Francorum (rei dos francos), ou Franciae Rex (rei da França), que Luís IX foi o primeiro a usar, os monarcas franceses também eram intitulados Rex Christianissimus (rei cristianíssimo). As relações entre a França e o papado atingiram o seu ponto máximo nos séculos XII e XIII, e a maioria das cruzadas foram proclamadas pelos papas em solo francês.

Paris encheu-se de escolas, tornando-se um pólo de estudantes. Neste período, Roberto de Sorbon, capelão real, inaugurou o Colégio Sorbonne (hoje uma prestigiada universidade).

Do secretariado do rei saiu um militar francês que se tornou o papa Clemente IV. Também fazia parte do quadro administrativo Étienne Boileau, responsável pela organização das "Corporações de Ofício" de Paris.

  • Sétima cruzada
Em 1244 Luís IX caiu gravemente enfermo de disenteria, a ponto de alguns terem como certa sua morte. Foram organizadas vigílias, procissões e outros actos religiosos pela sua convalescença, e o próprio monarca fez então um voto: caso sobrevivesse, partiria em cruzada para libertar o Santo Sepulcro.

No mês de aAgosto de 1244, Jerusalém, que havia sido duramente conquistada em 1241 pelos esforços de Frederico II (Paz de Áscalon), foi tomada pelos turcos que, em Outubro do mesmo ano, massacraram um exército composto de cavaleiros templários, hospitalários e teutônicos em La Forbie.

Sensível como era com as coisas da religião, estes eventos tocaram fundo naquele que era visto por todos como um "santo rei". Em Dezembro de 1244, aparentemente contra a vontade de toda a corte e antecipando-se ao Papa Inocêncio IV, Luís IX anunciou que retomaria Jerusalém do controle dos turcos. Estava iniciada a Sétima Cruzada.

Os motivos sugeridos para esta tomada de decisão são muitos e insondáveis, passam por, além da promessa acima referida, também pesa a figura exemplar de seu avô Filipe II, herói da Batalha de Bouvines, que recebeu a alcunha de "Augusto" lutando ao lado do inglês Ricardo Coração de Leão, na tomada de São João d'Acre, na Terceira Cruzada.

Retomar Jerusalém seria uma maneira de render homenagem ao ilustre antepassado, que chegou a conhecer, quando Filipe II morreu a 14 de Julho de 1223, Luís tinha quase nove anos.

Também era uma oportunidade ímpar para enterrar de vez o fracasso de Luís VII na Segunda Cruzada, que abandonou o cerco à cidade de Damasco sem nada conseguir, manchando em definitivo a reputação de "guerreiros invencíveis", obtida pelos francos.

A organização da cruzada durou quatro anos, durante os quais foi construído o porto de Aigues-Mortes, sob a iniciativa de Carlos de Anjou, irmão do rei.

A cidade nunca chegaria a ser ressarcida do custo exorbitante da infra-estutura requerida para este projecto e por isso levaria Carlos de Anjou perante a justiça.

A 12 de Junho de 1248 Luís armou-se com a oriflamme, o estandarte de guerra capetiano, na basílica de Saint-Denis. Partiu então, acompanhado da rainha Margarida da Provença, e dos seus irmãos Carlos de Anjou e Roberto I de Artois.

Apesar do exército razoável que montou, o efectivo podia ter sido bem maior, pois aquele que teria sido seu maior aliado foi impedido de acompanha-lo, porque o Papa Inocêncio IV excomungou (novamente) o Imperador Frederico II do Sacro Império Romano Germânico,

Acto não aprovado (mas também não questionado) pelo rei francês, mostrando que os interesses de Luís IX e os da Igreja Romana nem sempre caminharam na mesma direção.

Dirigiu-se para Lião, onde se encontrou com o papa Inocêncio IV, de quem recebeu a bênção apostólica, e em seguida para Aigues-Mortes, onde o aguardavam as embarcações que deveriam conduzir os cruzados ao Egipto. A 25 de Agosto de 1248, iniciou-se a Sétima Cruzada.

As naus tocaram inicialmente a ilha de Chipre, onde o monarca se viu obrigado a permanecer durante o Inverno devido a uma peste que arrebatou uma sexta parte do seu exército.

Estas perdas e a demora foram contudo de algum modo compensadas pela adesão de Henrique I de Lusignan, rei de Chipre, a quem São Luís conseguiu convencer a juntar-se à expedição.

Os cruzados retomaram a expedição a 13 de Maio de 1249, à frente de uma formidável armada de 1800 embarcações, grandes e pequenas.

Devido a tempestades, mais da metade destas desviou-se da rota pelo que, ao passar em revista as suas tropas, o rei encontrou apenas 700 cavaleiros, dos 2800 de que se compunha o seu exército.

A cidade portuária de Damieta (actual Dimyat) foi a primeira a ser tomada, em 8 de Junho.

O exército dirigiu-se então para Cairo mas sofreu ataques incessantes do emir Fakhr el-Din.

De Fevereiro a Abril de 1250, os cruzados cercaram a cidadela de Al-Mansurah. O escorbuto e a disenteria dizimaram os soldados e forçaram o rei a bater em retirada.

Acossado pela Peste, que continuou a provocar pesadas baixas, e surpreendido pelas cheias do rio Nilo, tentou retornar a Damiette, mas não conseguiu. Em Abril do mesmo ano foi preso juntamente com boa parte da sua corte pelos turcos mamelucos (muçulmanos sejúlcidas) do Egipto.

A cruzada deixou claro que o rei francês não planejava suas campanhas militares com o mesmo brilhantismo demonstrado na administração do reino.

Durante o seu cativeiro, o rei encarregou Margarida da Provença de conduzir a cruzada.

Luís IX e sua corte foram libertados após pagamento de pesado resgate, bem como a restituição da cidade de Damiette aos muçulmanos, porém não retornou à Europa, permanecendo no Oriente, onde, valendo-se de acordos e diplomacia, pôde fortalecer muitas posições cristãs nas regiões da Síria e Palestina.

Neste período nasceu seu sexto filho, João Tristão ou João de Damiette (1250-1270).

Durante todo esse tempo, mais de cinco anos, sua mãe reinou em seu lugar. Branca de Castela morreu no dia 27 de novembro de 1252, no castelo de Melun.

São Luís decidiu então prolongar a sua estadia no que restava dos estados latinos do Oriente. Reenviou os irmãos Afonso III de Poitiers e Carlos de Anjou para a França para apoiar a mãe Branca de Castela, só no governo do reino.

De 1250 a 1253 consolidou as fortalezas de São João de Acre, Cesareia, Jaffa e Sídon e conduziu a diplomacia dos cristãos com os poderes islâmicos da Síria e do Egipto.

Na Primavera de 1253, Luís IX tomou conhecimento do falecimento da rainha mãe regente, pelo que foi obrigado a voltar ao reino, deixando uma presença significativa de forças na cidade de Acre para a sua defesa contra ataques dos muçulmanos.

Os cruzados embarcaram em Tiro a 25 de Abril (festa de São Marcos) de 1254 e chegaram à França a 19 de Julho do mesmo ano.

Em 5 de Setembro encontrava-se no castelo de Vincennes e no dia seguinte entrava solenemente em Paris. O seu regresso foi acolhido com manifestações de afeição do papa Clemente IV e de Henrique III da Inglaterra.

Luís IX retornou à sua terra natal mas nunca mais foi o mesmo. A perda daquela que fora uma presença tão constante em sua vida, sua mãe Branca de Castela, a ponto de ter sido conhecido como o "rei-menino", gerou um vazio que jamais foi preenchido, e que foi agravado depois com a morte de seu terceiro filho e primogénito varão, Luís

  • Relações com os Mongóis
São Luís teve várias trocas epistolares com os governantes mongóis da época e organizou o envio de embaixadores junto destes.

Os contactos iniciaram-se em 1248, com enviados mongóis apresentando uma carta de Eljigidei, o goverador mongol da Arménia e da Pérsia, propondo uma aliança militar quando o rei francês desembarcou em Chipre em preparação para a Sétima Cruzada, encontrou-se em Nicosia com dois nestorianos de Mossul chamados David e Marco, enviados de Eljigidei.

Estes comunicaram uma proposta de formar uma aliança contra os ajúbidas e o califado de Bagdade

Em resposta, Luís enviou André de Longjumeau, um padre dominicano, como emissário a Guyuk Khan na Mongólia.

Mas Guyuk morreu antes da chegada deste à sua corte e a embaixada foi dispensada pela sua viúva, que lhes deu um presente e uma carta para o rei cruzado.

Eljigidei planeava um ataque aos muçulmanos de Bagdade em 1248. Tencionava que esta ofensiva fosse realizada em aliança com Luís, juntamente com a Sétima Cruzada.

Mas com a morte prematura do Khan, o governador adiou as operações até depois do interregno mongol, e o bem sucedido cerco de Bagdade só aconteceria em 1258.


Em 1253, São Luís enviou o franciscano Guilherme de Rubruck para a corte mongol. Mongke Khan deu-lhe uma carta em 1254, pedindo a submissão do rei francês

A colaboração militar ocorreria em 1259-1260, quando os cavaleiros francos de Boemundo VI, príncipe de Antioquia, e os do seu sogro Hetoum I do Reino Arménio da Cilícia, se aliaram com os mongóis liderados por Hulagu Khan. Juntos conquistaram a Síria muçulmana, tomando a cidade de Alepo e depois Damasco.

Os contactos entre as duas potências ainda se desenvolveriam no reinado de Filipe IV de França, levando a uma cooperação militar entre os europeus e os mongóis contra os mamelucos.

  • Primus inter pares
O século XIII ficou para a história da França como "o século de ouro de São Luís". A França, centro das artes e da vida intelectual graças, entre outras, à Sorbonne, atingia o seu apogeu também aos níveis económico e político. Luís IX comandou o maior exército e governou o mais poderoso reino da Europa.

O mecenato que deu às artes impulsionou inovações na arte e na arquitectura gótica. O estilo da sua corte espalhou-se pela Europa pela compra de obras dos mestres parisienses e pelo casamento das filhas e outros membros da casa real com estrangeiros, introduzindo assim os modelos parisienses no exterior.

A Sainte-Chapelle de Paris, a capela real, seria também copiada por alguns dos seus descendentes. E é muito provável que tenha ordenado a produção da Bíblia Morgan, uma obra-prima da iluminura medieval.

A reputação de santidade e de justiça do soberano estava já estabelecida durante a sua vida, pelo que era regularmente escolhido como árbitro das desavenças entre os grandes do velho continente.

O prestígio e o respeito na Europa por Luís IX seria mais devido a estas qualidades que pelo poderio militar. Para os seus contemporâneos, foi considerado o melhor exemplo de um príncipe cristão, primus inter pares (o primeiro entre iguais).

A 4 de Dezembro 1259, em Paris, assinou o tratado de Albeville com Henrique III de Inglaterra, acabando assim a primeira fase da Guerra dos Cem Anos entre os dois países.

A tão almejada paz foi alcançada através de intensas negociações que envolveram concessões e trocas de territórios, bem como acordos de sucessão. É comum, ao se avaliar os pormenores do acordo, presumir que houve ganho substantivo pelo lado inglês, principalmente se a análise tiver um viés económico, porém, no mundo medieval, a medida de importância era baseada em outros parâmetros.

Concluído o acordo, o rei inglês Henrique III, despojado de seus emblemas reais, prestou juramento de vassalagem a Luís IX.

À época, foi uma retumbante vitória da coroa francesa, que se tornou suserana da coroa inglesa.

Convém lembrar que o rei inglês havia se tornado seu cunhado por se ter casado com Leonor, irmã mais nova de sua esposa Margarida.

Este pacto só foi quebrado devido às querelas por território e sucessão que levaram à Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que durou mais de cem anos. A relativa calma interna permitiu que o rei francês voltasse novamente seus olhos para aquela que almejava livre do jugo muçulmano, a Terra Santa.

Um decreto de 1263 assegurou finanças fortes. Luís instalou uma comissão financeira encarregada do controlo das contas reais, reforçando a estrutura criada em 1190 pelo seu avô Filipe Augusto, um esboço da Corte das Contas, futuro parlamento da França.


  • Oitava cruzada e morte
Devido aos ataques continuados aos estados cruzados do Levante, São Luís decidiu lançar uma Oitava Cruzada, para a qual se apresentaram os seus filhos e Eduardo I da Inglaterra, além de numerosos príncipes e senhores.

Na África os muçulmanos sejúlcidas, unidos em torno do sultão Baibars e sua dinastia, avançavam sobre as cidades cristãs, expulsando os latinos da região. O principado de Antioquia foi conquistado em 1268.

Foi neste panorama que Luís IX lançou a Oitava Cruzada.

Partiram em direcção a Túnis a 4 de Julho de 1270. .

As tropas deixaram o território francês e logo foram assoladas por uma tempestade, mas mesmo assim continuaram. A intenção era chegar ao Egipto, porém, devido à insistência de Carlos d'Anjou (1227-1285), rei de Nápolis e irmão de Luís IX, que havia, contra a vontade de seu irmão, aceitado a coroa da Sicília, a frota aportou em Túnis, na Tunísia. Ali encontraram, novamente, outro complicação já habitual,a Peste.

São Luís esperava converter o sultão de Túnis ao cristianismo para, aliados, atacarem o sultão do Egipto. No entanto, depois da rápida conquista de Cartago pelos cruzados, este não permitiu sequer o desembarque da armada europeia.

Iniciou-se um confronto, com os franceses assediando vários pontos nevrálgicos dos inimigos e a própria capital. Como esta resistisse, decidiram dominá-la cortando os víveres.

Mas as doenças da cidade atingiram também o exército francês. Luís IX viu morrer seu filho João Tristão, nascido durante o seu cativeiro no Egipto, e pouco depois morreria ele mesmo, a 25 de Agosto de 1270, precisamente 22 anos após a sua partida para a Sétima Cruzada e a 4 meses de completar 56 anos

Tradicionalmente tem sido aceite que fora vitimado pela peste bubónica, mas estudos recentes indicam a sua morte por disenteria tal como seu pai

O corpo de Luís IX foi colocado sobre um leito de cinzas, em sinal de humildade, e os braços em cruz, à imagem de Jesus Cristo.

Este falecimento marcaria o fim da cruzada, a que se seguiriam mais mortes na família real. Isabel de Aragão, esposa de Filipe III de França, morreria na Sicília durante a viagem de regresso à França. Afonso III de Poitiers e a sua esposa Joana de Toulouse morreriam no intervalo de três dias, na Itália.


O cadáver do rei foi levado para França pelo seu filho e sucessor Filipe, com excepção das entranhas: algumas destas foram enterradas na actual Tunísia, onde ainda é possível hoje em dia visitar um túmulo de São Luís, outras foram destinadas à abadia de Monreale, na Sicília, a pedido do seu irmão Carlos I da Sicília.

O resto do seu corpo, depois de uma estadia na basílica de São Domingos em Bolonha e de uma paragem em Lião, foi transladado para a necrópole real da abadia de Saint-Denis.

O seu túmulo na França era um magnífico monumento de bronze dourado concebido no final do século XIV. Foi fundido durante as guerras francesas de religião, quando o corpo do rei santo desapareceu.

Só foi recuperado um dedo, mantido actualmente em Saint-Denis.

As relíquias conservadas na Sicília foram ainda transportadas para a Tunísia para a consagração da catedral São Luís de Cartago no final do século XIX e, por fim, aquando da independência deste país, devolvidas à França, onde foram depositadas na Sainte-Chapelle.


  • Interpretação política do reinado
No entanto, vários historiadores e analistas têm uma outra interpretação da vida de São Luís. O arquitecto Eugène Viollet-le-Duc por exemplo, avançou a hipótese de que o rei fora um astuto político que soube servir-se habilidosamente da religião para consolidar o seu poder e aumentar o poder do seu reino.

Na época de Luís IX, os grandes senhores feudais faziam uma concorrência feroz ao poder dos reis da França. Estavam constantemente em conflito e por vezes conspiravam contra a própria pessoa do rei.

São Luís soube,mostrando-se como um santo, usar a fé a a ambição dos seus barões para os incitar a participar nas duas cruzadas. Poucos dos grandes senhores que nelas participaram voltaram à França, e Luís pôde, sem grande oposição, tomar as suas possessões. Os que sobreviveram ficaram arruinados pela expedição, e por isso mais dependentes do monarca para a sua segurança, logo mais dóceis.

As medidas contra os pecados, a perseguição dos judeus e as constuções de edifícios religiosos demonstram talvez um fervor religioso, mas também um refinado espírito político.

Ao ganhar os favores da Igreja, também ganhava o favor dos súbditos mais pios do seu tempo. Conseguia assim um melhor controlo sobre o reino, e uma maior legitimidade.

A modernização da administração do estado e o reforço que deu à justiça real seriam as últimas conquistas por que lutou, a fim de aumentar os seus poderes e os dos seus descendentes no trono dos capetianos.

A sua Corte das Contas foi o instrumento fundamental desta construção política.

Assim São Luís conseguiu firmar os alicerces do que começava finalmente a ser o estado nação da França, unido sob um rei de direito divino. E conseguiu-o por uma subtil política, muito mais eficaz do que conflitos com os seus vassalos e tentativas de os subjugar pela força.

  • Descendência
Do seu casamento a 27 de Maio de 1234 com Margarida da Provença, teve os seguintes filhos:
  1. Branca (4 de Dezembro de 1240 - 29 de Abril de 1243)
  2. Isabel (2 de Março de 1242 - 27 de Abril de 1271), casada em 1258 com Teobaldo II, rei de Navarra
  3. Luís (21 de setembro de 1243 ou 24 de Fevereiro de 1244 - 13 de Janeiro de 1260)
  4. Filipe III de França (1 de Maio de 1245 - 5 de Outubro de 1285), seu sucessor no trono francês
  5. João (1246 - 10 de Março de 1248)
  6. João Tristão ou João de Damieta (8 de Abril de 1250 - 3 de Agosto de 1270), conde de Valois, casado em 1266 com Iolanda da Borgonha, condessa de Nevers
  7. Pedro (1251 - 6 de Abril de 1284), conde de Alençon e de Perche, casado em 1272 com Joana de Châtillon, condessa de Blois e Chartres
  8. Branca (1252 ou 1253 - 17 de Junho de 1320), casada em 1269 com Fernando de La Cerda príncipe herdeiro do reino de Castela
  9. Margarida da França (1254 ou 1255 - Julho de 1271), casada em 1271 com João I, duque de Brabante
  10. Roberto de França, conde de Clermont (1256 – 7 de Fevereiro de 1317), casado em 1279 com Beatriz de Borgonha, herdeira de Bourbon, ancestral de Henrique IV de França
  11. Inês (1260 - 19 de Dezembro de 1325), casada em 1279 com o duque Roberto II da Borgonha
O segundo dos seus filhos varões, Filipe III de França, foi o seu sucessor no trono, cujos descendentes directos foram reis até Henrique III de França.

A descendência do varão mais jovem de São Luís, Roberto de Bourbon, subiu ao trono francês durante nove gerações.